




  Nas Garras do Falco

The Medici Lover

Anne Mather


Bastaram alguns dias e uma troca de ambiente para mudar radicalmente a vida de Suzanne. Ela at
ento, s tinha desprezo e mgoas dos homens e durante toda a sua existncia procurou evit-los, 
dedicando-se avidamente ao seu trabalho. Mas uma viagem ocasional iria coloc-la nos braos do 
enigmtico Mazzaro, que aos poucos foi usando o seu magnetismo e conduzindo-a para um mundo 
encantado nas profundezas do seu ser e alimentando fortes emoes, que de to intensas 
despertaram uma paixo jamais vivida! Que poderes e feitios tinha aquele homem que devolveu a 
alegria aos dias de Suzanne, quando o seu corao estava fechado para o amor?

Publicado originalmente em 1977 pela Mills & Boon Ltd., Londres, Inglaterra

     
     Digitalizado e Corrigido: Judith Lima


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CAPTULO I


Suzahne comeou a ficar preocupada assim que o avio voou em crculos, preparando-se 
para aterrissar no aeroporto internacional de Veneza. Pensando bem, comeara a se 
preocupar muito antes, admitiu ela. Preocupada no era bem a palavra certa para definir o 
que sentia. Perturbada, ansiosa... at mesmo inquieta definiriam melhor. Pois quanto mais se 
aproximava da casa de Pietro, mais ela se convencia de que no deveria ter cedido ao 
impulso de vir.
Afinal de contas, o que ela sabia da famlia dele? Que ele no tinha irmos nem irms e que o 
pai dele j morrera. Ele evitara revelar mais do que isso. E talvez Suzanne jamais aceitasse 
esse convite se no fosse o acaso que fizera com que se afastasse de Londres no momento.
Contudo, ser que no estaria sendo severa demais? Afinal, ela e Pietro eram bons 
amigos... verdade que ela sentia que ele esperava que essa amizade se transformasse em 
algo mais profundo, mas apesar disso no havia motivo para se culpar por uma situao que 
ele prprio criara.
Em outras circunstncias ela teria pensado duas vezes, e talvez at trs, antes de aceitar 
passar alguns dias na companhia de pessoas que ela nunca vira e que eram estrangeiras.  
certo que conhecia a lngua e trabalhara vrios meses, no ano passado, como correspondente 
da companhia que a empregava, no hotel em Rimini, mas isso no significava que conhecia o 
povo.
Ela e Pietro Vitale s se conheciam h um ms e meio. No momento ela trabalhava em 
Londres, no hotel da companhia, que ficava no West End, e o encontro deles fora totalmente 
Incidental. Mais tarde ele lhe dissera que estudava na Faculdade da Artes de Londres, mas 
naquela manh, no pequeno antiqurio da Portobelo Road, ele parecera apenas um turista 
tentando se explicar para o vendedor. Ao perceber a dificuldade dele, Suzanne 
automaticamente interferira. O jovem italiano, de pele bronzeada, olhou com aprovao para 
seu rosto, de olhos castanhos sombreados por espessos clios e emoldurado por cabelos cor 
de mel, que balanavam sedosos sobre os ombros. Ela serviu de intrprete e depois ele 
acabou convidando-a para tomar um caf. Ela aceitou, achando-o simptico. Mas enquanto 
estavam sentados na lanchonete ela viu passar, do outro lado da rua, o reluzente Mercedes 
que fizera com que ela se refugiasse no antiqurio, e deu graas a Deus por estar na 
companhia do jovem italiano. 
Pietro mostrou ser uma companhia agradvel, portanto, quando ele sugeriu um segundo 
encontro, ela concordou. Talvez os motivos que fizeram com que aceitasse tivessem algo a 
ver com o Mercedes, mas ela procurava uma justificativa dizendo para si mesma que teria 
sido indelicado recusar um convite to gentil.
Voltou para o hotel num txi que Pietro chamou para ela, e s quando, mais tarde, Abdul 
Fezik entrou no escritrio dela feito um furaco  que ela percebeu porque aceitara o convite. 
Agora pelo menos ela teria um motivo real para recusar os insistentes convites do turco, para 
fazer com que ele desviasse a ateno e se interessasse por alguma outra mulher. Ele era um 
homem rico e poderoso que no estava acostumado a ser repelido pelas mulheres, 
principalmente por mulheres que precisavam trabalhar para ganhar seu sustento.
Suzanne, entretanto, no se interessava muito por homens. Desde cedo compreendera que 
sua aparncia seria um obstculo a sua deciso de fazer carreira, vencendo por seus mritos 
profissionais. Os patres em geral tinham tendncias a encarar nmoas atraentes de duas 
maneiras: com malcia ou com desconfiana. No primeiro caso procurando um tipo de 
relacionamento que Suzanne estava decidida a evitar, e no segundo, pressupondo que elas 
usariam o emprego apenas para fisgar um bom marido. Suzanne ficava furiosa com essa 
situao. Ela vira o casamento de seus pais ruir e no tinha a menor inteno de cometer o 
mesmo erro.
Desde que ela comeara a trabalhar no Grupo Minotaur, h trs anos, no tivera mais esse 
tipo de problemas. Certamente deveria ser porque passava pouco tempo em cada lugar e 
mudava sempre. Durante esses trs anos ela trabalhara em vrios pases, e aos vinte e 
quatro anos era considerada uma das executivas mais eficientes da companhia. Nicolai 
Stassis, o velho grego que fundara a organizao, era bem diferente da imagem que se 
costuma fazer de seus conterrneos e julgava sua equipe baseado na eficincia e capacidade 
profissional, e no no sexo. Era por isso que ela se opunha to ferozmente  atitude 
chovinista de Abdul, que acreditava que toda mulher precisava da proteo de um homem. 
Pietro, tendo surgido naquele momento, parecia uma resposta s suas preces.
Mas ela deveria ter se lembrado de que as coisas no so to simples assim. Pietro no era 
um boneco que ela poderia manejar de acordo com sua convenincia, alm disso no seria a 
presena de um suposto rival que desencorajaria Abdul. Ele era um homem arrogante que 
trabalhava em Londres a servio do governo de seu pas e morava no hotel. Estava sempre 
perseguindo Suzanne, a ponto de ela se perguntar como ele poderia se dedicar ao emprego 
se estava sempre disponvel. Ele era elegante e tinha uma boa aparncia, embora tendesse 
um pouco para o gordo; tinha dinheiro e posio, quase tudo o que uma garota na situao 
dela poderia desejar de um homem. Ele no se conformava que ela no o achasse to 
atraente quanto ele prprio parecia se considerar.
O relacionamento dela com Pietro progredia naturalmente.  medida que ela o conhecia 
melhor, apreciava cada vez mais a companhia dele, que no exigia nada, a gentileza, o 
cavalheirismo, o senso de humor. O interesse dele pela arte, segundo lhe contara, derivava 
do amor ao belo, e, embora ele falasse pouco sobre a vida em seu pas, ela acreditava que 
ele deveria conhecer bem a histria. Ele no era rico, isso era evidente... as roupas dele 
estavam sempre limpas e bem passadas, mas estavam desgastadas em alguns pontos, os 
cotovelos de suas malhas estavam remendados com couro. Contudo, s vezes, parecia ter 
um ar de importncia que no condizia com sua aparncia, e Suzanne precisava refrear o 
desejo de fazer perguntas sobre o passado dele. Afinal ela no tinha nada com isso! Pietro 
era muito agradvel, contudo s despertava nela afeio e um curioso sentimento de 
compaixo devido  timidez dele.
Quando Pietro anunciou a ela que iria passar dez dita em sua casa na Itlia, durante a Pscoa, 
Suzanne no imaginou de que maneira ela iria sentir sua ausncia. Durante a breve 
convivncia de algumas semanas, desde que se conheceram, Suzanne lhe contara fatos de 
sua vida: o divrcio de seus pais e, logo depois, a morte de seu pai num acidente de 
automvel. Sua me se casara da novo, mas tambm essa no fora uma unio feliz. O 
contato entre as duas limitava-se a breves visitas, almoar juntas. O trabalho de Suzanne a 
mantinha fora do pas durante meses a fio, impedindo uma convivncia maior. Por isso, agora, 
as duas quase no tinham o que se dizer. Sua me, Annabel, vivia em um mundo 
completamente diferente e nunca almejara ser independente como Suzanne.
Entretanto, quando Pietro a convidou para passar a Pscoa com ele, em casa, Suzanne 
sentiu-se atrada pela idia de um convvio familiar, embora no fosse a famlia dela. Mas se a 
me de Pietro fosse parecida com ele, deveria ser sem dvida uma mulher encantadora! E 
Suzanne estava, mesmo, disponvel . . tinha alguns dias livres ...                                                       
Mesmo assim ainda relutou. Como poderia aceitar um convite desses, de algum que 
conhecia h to pouco tempo? Pietro insistira dizendo que se ela quisesse ele escreveria  
me pedindo que ela a convidasse. Mas ela continuara a recusar. Acima de tudo, ela no era 
o tipo de garota que aceita passar dias com um rapaz que praticamente mal conhecia, por 
mais respeitoso que ele se mostrasse!
Mas novamente o destino interferiu, usando a pessoa de Abdul. Trs dias aps o convite de 
Pietro, o gerente do hotel mandou chamar Suzanne para lhe dizer que um dos hspedes, o Sr. 
Abdul Fezik, desejava contrat-la como secretria particular durante o fim de semana para 
organizar uma recepo. Ela olhou desconfiada. Mas que audcia! Depois de tudo o que ela 
fizera o homem ainda no acreditava que ela no iria se render! Sem pensar duas vezes, 
disse que no poderia aceitar pois j tinha compromisso, Iria passar a Pscoa na Itlia com a 
famlia de seu namorado.
Pietro naturalmente adorou quando ela lhe comunicou que aceitava o convite, mas ficou 
indignado quando insinuou que talvez fosse melhor ela ficar hospedada em um hotel.
 Castelfalcone  um vilarejo!  protestou ele.  No h hotis... s uma penso. E no 
ficaria bem que uma convidada de minha famlia ficasse na penso!
E Suzanne concordou. Afinal seriam apenas alguns dias. Ela precisaria voltar a Londres logo. 
Na verdade seriam apenas quatro dias.
Mesmo assim, no momento em que o avio decolou de Heathrow, o aeroporto de Londres, a 
preocupao comeou a tomar conta de Suzanne, que achava sua situao bastante 
ambgua. Pietro lhe dissera haver escrito  me dele mas no dissera o que escrevera, e ela 
no conseguia deixar de imaginar se ele no teria insinuado haver entre eles um 
relacionamento que s existia na imaginao dele. E se a me dele perguntasse? O que ela 
responderia? E Pietro, o que diria?
O pequeno carro esporte de Pietro estava no aeroporto. Eles passaram pela alfndega e 
controle de passaportes sem complicaes, saram para o calor da tarde sentindo o peso de 
suas roupas quentes. O cu estava um pouco nublado, mas a luminosidade machucava os 
olhos, fazendo com que Suzanne colocasse os culos escuros.
Suzanne observou os outros passageiros que se dirigiam aos nibus e barcos e pensou que 
seria bom se eles pudessem ficar em Veneza. Teria sido muito mais fcil ficarem, annimos, 
em algum hotel, sem que ela tivesse que encarar a constrangedora perspectiva de se 
defrontar com os parentes, desconhecidos, de Pietro.
Pegaram a estrada rumo norte, deixando para trs os canais e campanrios da cidade. O 
trnsito estava bastante movimentado devido aos feriados, e Suzanne, que nunca andara no 
carro de Pietro, alarmou-se ao ver como ele desconsiderava os outros motoristas. Sem dvida 
ele era desses homens que quando se vem atrs de um volante mudam totalmente de 
personalidade. Ela j estava suando frio quando saram da estrada principal e entraram em 
uma outra mais estreita, de terreno acidentado.
Num esforo para se distrair e no prestar ateno s loucuras que ele fazia, ela resolveu 
conversar, perguntando coisas que at ento evitara,
  Voc e sua me moram sozinhos?  perguntou ela em italiano, para deix-lo mais  
vontade.
Pietro demorou um pouco para responder, fingindo estar concentrado na direo enquanto 
ultrapassava um carro de bois, mas por fim disse:
  No. Ns moramos na casa do meu primo.
  Seu primo?
Pietro balanou a cabea segurando firme a direo
  Eu lhe disse, Suzanne... meu pai morreu h alguns anos.
  ... eu lembro...  Suzanne considerou a situao  e seu primo mora em Castelfalcone.
   isso mesmo!
  Seu primo ... casado?  perguntou ela, e Pietro mais uma vez balanou a cabea 
afirmativamente.
Suzanne tentou imaginar a casa. Ela sabia que os italianos so muito apegados  famlia, 
mas duas mulheres dirigindo uma casa acabava sempre dando confuso. Qual seria a 
posio da me de Pietro na vida domstica? Ser que havia crianas? Ser que era ela que 
tomava conta da casa e dos filhos de seu sobrinho? Ser que havia outros membros da 
famlia Vitale morando na casa? Mas por que ela no fizera todas essas perguntas enquanto 
ainda estavam em Londres?
  0 que... o que faz seu primo?  perguntou ela, e viu com surpresa uma certa amargura 
toldar o rosto de Pietro.
  O que ele faz?! Como assim?
  Quero dizer qual  a ocupao dele  explicou ela, meio sem jeito, pois no imaginava 
que sua pergunta fosse difcil de ser respondida , acho que ele deve ter algum trabalho, no 
?
Pietro olhou-a de soslaio.
  Meu primo  aleijado. Sofreu um acidente h trs anos.
  Ah!  Suzanne arrependeu-se de ter perguntado. Sentiu que havia se intrometido em um 
assunto particular que envolvia tragdia, embora a voz de Pietro no denunciasse compaixo. 
 Desculpe, sinto muito...
Pietro deu de ombros.
  Isso acontece. Mazzaro tem sorte de ainda estar vivo.
  Mazzaro?  o nome de seu primo? 
  ... Mazzaro di Falcone.
  Falcone!?  Suzanne no pde reprimir a exclamao.  Mas.   . pensei que o 
sobrenome dele fosse igual ao seu!
  No ... o pai da Mazzaro era irmo da minha me.
  Ah! Entendo.
Suzanne olhou a paisagem campestre que atravessavam. Um raio furtivo de sol iluminava a 
torre de uma igrejinha que ela avistava no alto da colina  Estavam em pleno campo. A estrada 
seguiu  de um riachlnho por algum tempo e depois comeou a subir. De cima avistava se o 
vale com as plantaes bem cuidadas. Passaram por vrios povoados. Ao longe avistavam os 
Alpes, com os picos cobertos de neve, lar das marmotas e dos cervos.
O campo era lindo, mas Suzanne no estava prestando muita ateno ao cenrio. O nome do 
primo de Pietro parecia familiar. . depois de uns instantes percebeu que era o mesmo da 
cidade, ou quase. Castelfalcone... Falcone.
  Pietro...  comeou ela, mas Pietro interrompeu-a perguntando-lhe se estava com fome 
ou cansada e avisando que no estavam muito longe. Sorriu para ela e ela encolheu os 
ombros, dando-se por vencida. Sem dvida, logo saberia por que Pietro era to reticente 
quando se referia  famlia.
Suzanne achou Castelfalcone um pouco parecido com San Marino. Tal como a pequena 
repblica, Castelfalcone era uma cidade fortificada, cercada por muralhas e torres, isolada por 
um fosso. A entrada era um grande portal em forma de arco; as ruas, caladas com pedras 
irregulares, e as arcadas estavam impregnadas de histria. Havia uma praa, Pietro dissera 
chamar-se Piazza delia Cortina, que parecia ser o ponto central da cidadezinha, onde vrias 
pessoas passeavam, aproveitando o ar fresco do entardecer. As portas de uma cantina 
abriam-sesobre a calada com mesas cheias, protegidas por guarda-sis. A praa era 
circundada por copadas rvores, algumas delas j cobertas de flores.
  Que lindo!  Suzanne exclamou sem querer, e Pietro encheu-se de orgulho.
   lindo, mesmo  concordou ele.  Na temporada isto aqui fica cheio de turistas.
Suzanne ia olhando ao redor enquanto contornavam a praa, at que entraram em uma 
ruazinha estreita que conduzia para fora do vilarejo.
  Onde  que mora seu primo?!  perguntou ela, franzindo as sobrancelhas, e sem dizer 
nada Pietro apontou para uma placa, ao lado da estrada, que indicava Villa Falcone, 
apontando para uma subida. Suzanne olhou para cima, mas tudo o que viu foi um paredo de 
pedras, e perdeu a respirao quando Pietro acelerou o carro e enveredou estrada acima, at 
chegar ao enorme porto de ferro.
Ela avistou a Villa assim que Pietro parou para abrir os portes, e sua respirao acelerou, 
apreensiva. Bastou olhar de relance para o braso de famlia, encimando o porto, para saber 
que fora convidada para ser hspede de uma famlia importante, embora soubesse, por 
experincia, que homens realmente ricos no faziam alarde de sua riqueza tal como aquele 
braso parecia fazer.
Pietro voltou para o carro, e ela virou-se para ele um tanto impaciente.
  Por que voc no me disse?  perguntou ela, mas ele estava j engatando a marcha e 
nem olhou para ela.
  E voc teria vindo se eu tivesse dito?
  Provavelmente no.
  Foi isso que eu pensei.
  Mas, Pietro, ser que voc no entende. . Eu no posso ficar aqui!
  Por que no?  Ele havia parado o carro do lado de dentro dos portes para fech-los.
  Voc sabe por que, Pietro. Se essa  a casa de seu primo...  suspirou ela  voc deve 
entender.
Ele olhou para ela.
  Suzanne, no se preocupe. Meu primo no  rico, se  isso que est incomodando voc.
  Mas como no ?!
  No .  Pietro balanou a cabea.  Suzanne, ser que voc pensa que inflao e 
impostos s existem em seu pas? Aqui tambm existe, e todos sofrem as conseqncias. H 
poucos italianos com dinheiro hoje em dia.
  Mas. . . um lugar como este.. . Pietro deu de ombros.
  Isto que voc est vendo, Suzanne,  um museu. Sales entulhados de moblias e 
quadros, porcelanas e cristais, taas, medalhes, prateleiras de livros que nunca sero lidos. 
Um mausolu teria mais vida! E dentro de algumas semanas chegaro os turistas. Minha me 
ser o guia que os conduzir atravs de Villa Falcone. Eles compraro folhetos explicativos e 
pequenas lembranas para se recordarem da visita, pelo menos  o que esperamos. Voc 
entende agora?
Suzanne entendeu o que ele disse, mas no o tom de voz  com que ele disse. A irreverncia 
que havia na voz de Pietro era algo que ela nunca ouvira antes.
 Mas... sem dvida, os quadros que voc mencionou... e outras coisa... devem ser valiosos, 
no ?
  Sem dvida
 Ento porque seu... quero dizer... essas coisas so muito procurados hoje em dia...
Pietro encarou-a com ar de troa, fingindo estar horrorizado.
  Suzanne! O que voc insinuou ... uma blasfmia! Um ultraje! Um sacrilgio!
0 tom de brincadeira encorajou-a.
  Aposto como seu primo no quer vender.
 Acertou!  Pietro saltou do carro.  Com licena.
Quando ele voltou, depois de ter fechado os portes, seu rosto estava de novo srio, e assim 
que entrou no carro sorriu meio envergonhado, tentando desculpar-se.
  Acho que s vezes perco o controle e comeo a achar meu primo um egosta. Desculpe-
me. Normalmente no sou to mal-educado assim  ele suspirou.  Voc deve estar 
imaginando onde ns moramos. Bem, ns ocupamos a ala oeste, no fundo da Villa. Voc vai 
ver como ela  construda, com um ptio interno onde h uma fonte. O rumorejar da gua 
corrente  delicioso! Tenho certeza de que voc vai adorar.
Suzanne desejou sentir-se to confiante quanto ele. A entrada da Villa era magnfica. 
Ningum podia deixar de admirar as linhas clssicas da fachada incrustada de mrmore, em 
tons claros e escuros, criando um jogo de cores fascinante. Mas viver num lugar desses j era 
outra histria... e ainda mais se Pietro no se entendia bem com o primo. .. por que  que ele 
ficava l, ento?
Passaram sob uma parreira e percorreram uma alameda sombreada por rvores, ao lado da 
Villa, at que Pietro estacionou em um ptio calado de pedras, onde havia garagens, 
cocheiras e algumas casas. Um homem idoso saiu de uma das casas para receb-los, 
entretanto, quando reconheceu o carro, cumprimentou, apenas, com educao, mas sem 
nenhum entusiasmo. Suzanne achou isso estranho, considerando-se que Pietro havia 
passado bastante tempo fora. Contudo Pietro no tomou conhecimento, retirando as malas do 
carro e acenando para que Suzanne o seguisse.
Uma fileira de rvores separava a Villa da cocheira, e o caminho at o fundo da casa, 
passando sob uma prgula, era encantador. Suzanne viu luzes nas janelas da casa, e um 
calafrio percorreu-lhe o corpo diante da perspectiva do encontro. Sem querer comeava a 
ficar intrigada com a situao naquele lugar, curiosa por saber mais a respeito da famlia que 
aceitava toda essa imponncia como algo perfeitamente natural.
Atravessaram jardins bem cuidados, com canteiros geomtricos perfeitos, e Suzanne viu o 
ptio com mosaicos, onde havia uma fonte com bacia de mrmore. O terrao era enorme e 
cheio de colunas que sustentavam a sacada do andar superior, que deveria proporcionar uma 
vista magnfica.
Entraram em uma longa galeria iluminada por lustres esculpidos em bronze, que se fixavam 
nas paredes. Todos os aposentos do andar trreo davam para o terrao, embora no momento 
as venezianas estivessem fechadas para impedir a invaso de insetos.
Os passos ecoavam no piso de mrmore. Pareciam intrusos diante daquelas paredes 
decoradas por painis e afrescos cujas cores o tempo empalidecera um pouco. Suzanne 
olhava em volta, maravilhada o teto, as paredes, o piso... tudo. Sobre a mesa havia objetos de 
prata trabalhados, cujo valor estava bem longe do alcance de qualquer pessoa comum.
Pietro largou as malas e olhou para ela.
 Estou vendo que voc gosta de arte e arquitetura  comentou em tom seco.  Venha! 
Precisamos avisar minha... famlia... que chegamos.  
Suzanne no deixou passar despercebida a hesitao da frase e olhou indecisa para a cala 
comprida roxa que estava usando. Num lugar desses, mulheres de cala comprida pareciam 
um insulto. Por que no colocara um vestido ou uma saia! Mas, tambm, ela no sabia que a 
famlia de Pietro morava em uma dessas famosas Villas italianas.
Entretanto, antes que tivessem esboado qualquer movimento, abriu-se uma porta  esquerda 
e surgiu a figura de um homem alto, ligeiramente encurvado. Suzanne empertigou-se, 
imaginando que ele deveria ser seu anfitrio, mas no estava preparada para seu primeiro 
encontro com o dono da Villa Falcone.
Surpreendentemente o que primeiro lhe chamou a ateno foram os olhos dele. 
Surpreendente porque, apesar do corpo levemente deformado, ela olhou primeiro para os 
olhos verde-claros, profundos e sombreado por espessos clios. Os olhos eram muito bonitos 
e era difcil desviar desse olhar.
Ela esperava encontrar um homem mais jovem, pois, como Pietro tinha vinte e poucos anos, 
ela imaginava que o primo tivesse mais ou menos a mesma idade. Contudo Mazzaro di 
Falcone era bem mais velho, devia estar por volta dos quarenta, tinha o cabelo negro 
entremeado de fios grisalhos. Ele era mais alto do que os italianos em geral, tinha um corpo 
elegante e musculoso que apoiava pesadamente em duas muletas. Movia-se lentamente e 
com dificuldade e, a julgar por suas feies tensas, deveria sentir dor quando se locomovia. A 
cicatriz que abrangia parte de seu rosto e do pescoo  que dava s feies dele um certo ar 
malvolo. Suzanne achou que ele lhe recordava o "Anjo Cado" de Dante e sentiu-se inquieta 
com os sentimentos que ele estava despertando nela.
Pietro, talvez sentindo a tenso que pairava no ar, andou em direo ao primo.
 Boa tarde, Mazzaro.  Fez um gesto para que Suzanne se aproximasse.  Como voc v, 
acabamos de chegar. Permita que lhe apresente minha... ah... Suzanne Hunt.  Fez uma 
pausa.  Suzanne, como voc j deve ter adivinhado, este  meu primo Mazzaro, conde di 
Falcone.
  Conde?  A palavra saiu sem querer e ela levou a mo aos lbios. Mazzaro estreitou os 
olhos.
 Sem dvida meu primo esqueceu de explicar que  apenas um ttulo, totalmente vazio  
comentou ele em um ingls fluente.  Muito prazer em conhec-la. Como pode perceber no 
estou em condies de apertar sua mo, mas quero lhe dizer que  bem-vinda  Villa Falcone.
Obrigada.  Suzanne olhou Pietro de soslaio.  Eu.. foi muita gentileza sua concordar com 
minha vinda.
Mazzaro fez um gesto com os ombros encerrando o assunto.
 Sua me est no salo menor, Pietro. E sei que est esperando sua chegada com 
bastante... animao. Agora se me do licena...
  Ele falou em ingls, de novo, mas Pietro respondeu em italiano, rapidamente, quase que 
num tom de desafio.
 Suzanne fala italiano correntemente, Mazzaro. Voc no precisa mostrar a ela a perfeio 
de seus conhecimentos lingsticos.
Ele escolhera as palavras propositalmente e falara em tom insolente, mas Mazzaro apenas 
olhou o primo com um ar de troa e respondeu em italiano.
 Aposto como voc no precisa disso.
A expresso de Pietro ficou sombria, mas Mazzaro no esperou para continuar a discusso. 
Balanou a cabea na direo de Suzanne e atravessou o saguo. A sombra dele projetou-se 
na parede como uma grotesca caricatura de homem. Pietro observou o primo se afastar e sua 
expresso se desanuviou um pouco. Depois virou-se e tocou no brao de Suzanne.
 Venha!  por aqui.
Passaram pelo aposento de onde Mazzaro sara, e Suzanne vislumbrou o interior, 
confortavelmente mobiliado, com uma estante de livros encadernados com couro bem em 
frente  porta. Pietro parou diante de uma porta ao lado e, assim que a abriu, uma garota de 
seus dez anos veio correndo receb-lo.
  Pietro! Pietro!  gritava com grande vibrao, abraando a cintura dele e erguendo o 
rosto com uma expresso de grande contentamento.  Pensei que voc no viesse mais!
Pietro beijou o rosto da menina e, em seguida, olhou para a mulher idosa que estava sentada 
em uma poltrona ao lado da lareira de mrmore.
 Mame!  exclamou com a voz calorosa que Suzanne conhecia.  Mame,  to bom v-
la de novo.
Enquanto Pietro foi cumprimentar a me, a menina voltou a ateno para Suzanne. Olhou-a 
com indisfarada curiosidade. Suzanne imaginou que ela deveria ser filha de Mazzaro. A pele 
era de um moreno plido. 0 cabelo preto e liso preso em duas trancas. Contudo ela tinha um 
certo ar de abandono, como se ningum ali se interessasse muito por ela. As roupas 
aparentavam desleixo, no fazendo jus ao corpo pequeno e esguio. Suzanne decidiu puxar 
conversa, forou um sorriso e disse:
 Ol. Meu nome  Suzanne. E voc, como se chama?
Antes que a menina pudesse responder, entretanto, a voz da sra. Vitale ecoou pelo aposento.
 Elena! Venha aqui, imediatamente!
Elena obedeceu e, sem relutncia, foi, obediente, at onde estava a me de Pietro. Suzanne 
ficou parada diante da porta, sentindo-se ainda mais s.
O salo tambm tinha afrescos nas paredes, representando cenas de caa. Suzanne sentia-
se perdida. A sra. Vitale era dona absoluta da situao, sentada em sua poltrona majestosa, 
tendo Pietro de um lado e Elena de outro, muito  vontade entre os objetos luxuosos e os 
preciosos tapetes.
Pietro olhava para Suzanne, chamou-a para perto e apresentou-a  sua me. A sra. Vitale 
tambm era mais velha do que ela imaginara e j deveria ter perdido todas as esperanas de 
ter um filho quando Pietro foi concebido,
Aps cumprimentar  convidada do filho com uma desaprovao mal escondida, ela se ps a 
fazer perguntas pessoais sobre o passado de Suzanne. Embora Indignada com esse 
interrogatrio, Suzanne decidiu submeter-se. Uma vez que no tinha nada a esconder, no via 
por que no satisfazer a curiosidade da sra. Vitale. Contudo a desaprovao da velha senhora 
aumentou assim que ouviu Suzanne dizer que os pais eram divorciados, e, em tom 
esmagador, encerrou a conversa dizendo que aos olhos de Deus no havia divrcio.
A expresso de Pietro era de quem pede desculpas e o olhar implorava para que ela no se 
ofendesse com as palavras da me dele. Suzanne mordeu a lngua para no responder o que 
tinha vontade a, para aliviar a tenso, falou de novo com a menina.
 Elena...  disse ela forando um novo sorriso.  Que nome bonito!
A garota olhou para ela indecisa. Sem dvida ficara impressionada com o fato de Suzanne se 
dirigir a ela em italiano, mas continuava olhando para a me de Pietro para orientar seu 
comportamento. A velha senhora puxou a menina para perto de si, beijou-a no rosto a disse:
 Est na hora de voc ir dormir, Elena. Amanh voc vai ter tempo de sobra para conversar 
com Pietro.
Elena fez um muxoxo de desnimo, mas sem o menor trao de rebeldia obedeceu, indo 
receber o beijo de Pietro, depois, com um breve aceno, despediu-se e saiu do salo fechando 
as portas.
Suzanne sentiu que ela fosse embora. Pelo menos enquanto ela eslava l havia uma 
esperana de superar a situao. Agora sentia-se de novo perdida e constrangida.
 Pietro me contou que voc trabalha em um hotel  continuou a velha senhora sem se 
alterar com a partida de Elena.
  verdade. Alis eu trabalhei em Rimini por vrios meses no ano passado.
 Rimini!  Apertou os lbios mostrando que seu conceito sobre Rimini no era dos 
melhores.  O paraso dos turistas! Isso  tudo o que conhece da Itlia?
  No. No... Estive em Roma e Veneza, e naturalmente enquanto estava trabalhando em 
Rimini fui vrias vezes a Florena.
 E de qual cidade gostou mais?
Suzanne sentiu que a pergunta era importante. Dependendo do modo como respondesse 
poderia influenciar o futuro relacionamento com a me de Pietro. Mas, afinal, que futuro 
relacionamento? Um fim de semana! Quatro dias, para ser mais exata. Acabou resolvendo 
responder com sinceridade apenas.
 Florena  disse sem hesitar , a cidade das flores! A expresso da senhora Vitale 
realmente se desanuviou.
  mesmo? Voc gosta de Florenca?
Suzanne respirou aliviada. Sem dvida acertara na escolha. A velha senhora continuou mais 
descontrada.
  Eu tambm gosto mais de Florenca. O bero da Renascena! O joguete dos Medici. E a 
cidade acabou triunfando sobre tudo. Imortal! Brunnelleschi, Giotto, Pisano, Botticelli. Ah, os 
tesouros da cidade no tm fim. A gente no se cansa de tanta grandiosidade!
Pietro parecia contente, agora, e falou com orgulho.
 Minha me conhece a fundo a arte e a arquitetura da Renascena
  Ento deve gostar muito desta Villa  aventurou-se ela, mas a sra. Vitale fez um gesto 
impaciente.
  Eu adoro a Villa Falcone  disse com aspereza , mas no gosto de abrir suas portas 
para receber turistas insensveis que vm se acotovelar bisbilhotando e pondo a mo em 
tudo...
 Tia Tommasa!  uma voz suave interrompeu o desabafo da velha senhora.  Estou certa 
de que Suzanne no concorda com a senhora, no , Suzanne?
Suzanne virou-se e viu uma jovem mulher parada perto da porta. Ela era a elegncia da 
cabea aos ps. Entretanto, com um exame mais minucioso podia-se perceber que no era 
to jovem quanto parecia  primeira vista.
 Sophia!  Pietro afastou-se da me para ir ao encontro da mulher que o envolveu nos 
braos de um modo que teria deixado Suzanne com cime, se ela tivesse algum envolvimento 
com Pietro.
 Pietro querido!  exclamou Sophia, afastando-se um pouco e ajeitando o cabelo tingido de 
castanho avermelhado que tornava suas feies midas atraentes.   maravilhoso ter voc 
em casa de novo!  Ento olhou para Suzanne.  E essa,  sua namorada inglesa.  Ela 
sorriu, e esse foi o primeiro sorriso realmente amistoso que Suzanne recebeu desde sua 
chegada a Villa Falcone.  Bem-vinda a Castelfalcone, Suzanne. Queremos que aproveite 
bem sua estada conosco.
 O que seria difcil se dependesse de voc, no  Sophia?! Uma sombra apareceu entre 
eles e, virando-se para o local de onde viera a voz irnica, Suzannel viu que Mazzaro estava 
parado perto da porta.
Imediatamente Pietro avanou para ele com palavras agressivas, mas Sophia agarrou-o pelo 
brao com um gesto imperioso. As jias em seus dedos refletiam a luz, criando prismas.
 Voc no podia deixar de fazer uma piadinha, no , Mazzaro?! disse ela, fingindo 
despreocupao como se ele tivesse feito um comentrio leve.  Suzanne, j conhece meu 
marido... Conde di Falcone?
 J nos encontramos  respondeu Mazzaro com frieza. Os olhos Verdes brilharam, 
encarando Suzanne antes de se desviarem para a figura da sra. Vitale.
 O jantar est pronto, tia Tommasa, e Lcia est dizendo que no se responsabiliza pelos 
estragos se demorar para servir.


CAPITULO lI


Os dedos de Suzanne tremiam, enquanto ela tentava silenciosamente abrir a porta que dava 
para a sacada. A ltima coisa que desejava era que algum percebesse que ela no 
conseguia dormir, mas estava insone h horas e precisava tomar um pouco de ar fresco. A 
porta abriu sem ranger e ela suspirou aliviada. O ar estava frio, causava uma sensao 
refrescante em seu corpo quente. Fechou os olhos por um momento e ergueu a mo para 
afastar o cabelo do rosto. Ah! Que reconfortante. .   depois de tantas impresses confusas 
que causavam um turbilho em sua mente! Virou a cabea e olhou para o quarto na 
penumbra. Certamente que era confortvel e a cama bem macia, mas mesmo assim ela 
estava agitada. Havia muitas coisas para mant-la acordada, e nem mesmo o cansao da 
viagem conseguia afastar as lembranas da noite que acabara de viver.
Saiu para a sacada e apoiou-se no pra-peito, olhando para o ptio abaixo. At a fonte estava 
silenciosa naquele momento, e tudo o que ouvia era a melodia da brisa vinda da montanhas, 
que passava por entre as colunas do terrao. Sentiu um arrepio. O penhoar era fino e no 
agasalhava, mas mesmo assim relutava em voltar par dentro e sentir de novo aquele alvoroo 
todo. Ela teria que acaba resolvendo a situao, ali, mas no seria nada fcil.
Ergueu os olhos na direo das montanhas que recortavam o cu. Como  que algum 
poderia morar num lugar desses sem se deixar afetar por um sentimento de imortalidade? 
Mas ser que isso dava o direito de tratar os outros com desrespeito? Franziu as 
sobrancelhas numa expresso preocupada. Havia quatro adultos e uma criana vivendo na 
Villa, e entre eles desenrolava-se toda a gama de relaes humanas. No era  toa que Pietro 
sempre fora reticente quanto  sua famlia. Como  que poderia descrever corretamente o que 
se, passava na Villa Falcone?
Contudo parecia no haver motivo para a tenso que ela percebia existir atrs da aparncia 
de cortesia. Era certo que a me de Pietro no era uma pessoa de fcil convvio, mas j 
estava velha, e isso justificava muita coisa. A atitude de Pietro era menos fcil de se 
compreender. Era bvio que ele amava a me e Elena, e parecia gostar muito de Sophia. Mas 
ele e o primo pareciam ter personalidades totalmente antagnicas. Sophia parecia estar na 
pior posio. Ela parecia uma jovem amigvel, perfeitamente normal, demonstrando interesse 
pelo trabalho de Suzanne, por sua vida na Inglaterra e os lugares que ela visitara. Falara com 
entusiasmo sincero das vantagens de se poder trabalhar em outros pases, e fora a nica 
pessoa,  mesa do jantar, que fizera Suzanne se sentir  vontade. O marido era o agente 
catalizador entre todos eles. Suzanne arrepiou-se de novo, lembrando-se de como a imagem 
de Mazzaro a perturbara.
Trajando roupa preta, que acentuava seu ar malvolo, ele sentara-se  cabeceira da enorme 
mesa de jantar com o frio despotismo de um Medieval. Na mesa, as velas acesas em 
candelabros de bronze criavam sombras no teto, disfarando as feias cicatrizes que 
comeavam bem abaixo do olho direito do Conde di Falcone, atravessavam o rosto e desciam 
pelo pescoo, at sumir na camisa.
Mas no fora s a aparncia dele que a perturbara. O rosto marcado no lhe causava repulsa, 
ao contrrio, a cada vez que cedia  tentao de olhar para ele sentia a fora dos olhos 
verdes penetrantes. Entretanto, o comportamento dele em relao  esposa  que parecia 
fora de propsito, e despertava nela as emoes mais confusas. Isso fora o que achara mais 
difcil de aceitar.
Durante a refeio, Sophia fizera vrias tentativas para que o marido participasse da conversa, 
e ele repelira todas elas com comentrios irnicos ou mordazes. Ele parecia sentir prazer em 
ser rude com eIa e ela simplesmente ignorava a insolncia dele, com um sorriso relutante, 
continuando a conversar com Suzanne como se nada tivesse acontecido. Mas Suzanne sabia 
o que acontecera e tambm Pietro, sentado do outro lado da mesa, a julgar pelo modo como 
apertava as mos.
Era bvio que Pietro ficava indignado com a atitude do primo em relao  esposa. E por que 
no ficaria? Era uma reao perfeitamente natural. A cortesia que Mazzaro dispensava  tia 
salientava ainda mais a rudeza. Mas por que ele tratava Sophia daquele modo? por que ela 
no revidava? Se fosse com ela, Suzanne tinha certeza de que revidaria. Mas se ela fosse 
Sophia ser que faria o mesmo? 
Olhou para as mos apoiadas na grade do pra-peito e nesse momento viu uma sombra se 
movendo no ptio. Afastou-se num sobressalto sentindo a boca seca. Havia algum l 
embaixo. Mas, quem? Por qu? Ser que a tinham visto? Ficou onde estava, imvel e viu a 
sombra mover-se at concretizasse na figura de um homem alto, magro, que se locomovia 
com dificuldade.
Suzanne colocou a mo sobre os lbios para impedir a exclamao. Era Mazzaro. Agora 
podia v-lo bem, os cabelos escuros, o corpo musculoso. Mas Mazzaro estava andando sem 
as muletas.  certo que mancava um pouco, mas estava sem dvida ereto.
Continuou imvel por mais alguns instantes, mas depois, percebeu que no deveria ter 
presenciado essa cena, voltou em silncio para o quarto. Aquilo no tinha sentido. Mazzaro 
andando pelo ptio em plena madrugada... andando sozinho e sem ajuda. Ser que algum 
sabia? Ser que ele confiava em algum? Ou seria isso um segredo dele, a explicao do 
tratamento rude que dispensava  esposa? Evidentemente Sophia no deveria saber disso, 
seno no seria to paciente com ele. Mas que motivo teria ele para manter isso em segredo, 
para negar  famlia a alegria de participar de sua melhora, de seu restabelecimento?
Suzanne deixou cair o roupo e enfiou-se na cama, sentindo-se mais confusa do que antes. 
Mas, apesar de tudo, acabou adormecendo.
Acordou com algum batendo  porta. Ficou alguns instantes sem entender onde estava, mas 
o sol que entrava pela porta do terrao que ficara aberta a trouxe de volta  realidade. 
Erguendo-se dos travesseiros com fronhas de seda, cor de creme, ela disse: "Entre!". A velha 
governanta, Lcia, entrou trazendo uma bandeja de prata. Apesar do sol brilhante, Lcia 
usava roupa escura com uma saia volumosa e comprida, que lhe chegava quase aos 
tornozelos, entretanto, o rosto cheio de rugas era amistoso.
 Bom dia, senhorita  cumprimentou educadamente, enquanto se aproximava da cama.
 Bom dia, Lcia, que horas so?  respondeu ela em italiano, Lcia ficou contente de saber 
que Suzanne falava a sua lngua
  So dez e meia, senhorita  respondeu sorrindo, colocando bandeja sobre a cama.  
Dormiu bem?
Mas Suzanne mal a ouvia. Seriam mesmo dez e meia? Ser que dormira tanto assim? Talvez 
no fosse to surpreendente, considerando-se que tivera uma noite agitada e que s pegara 
no sono quando j era bem tarde.
  No precisava ter tanto trabalho, Lcia. Acho que dormi demais, desculpe.
 No tem importncia, no  trabalho nenhum. Pietro me disse que a senhorita deveria 
estar cansada.
Suzanne examinou a arrumao da bandeja. Havia caf, leite, suco de laranja, pezinhos 
quentes e uma tigela com gelo para a manteiga e ao lado de tudo, uma rosa.
Ela ergueu a flor delicadamente e aspirou o perfume suave. Que idia encantadora de Pietro! 
S esperava que ele no estivesse interpretando de forma errada o fato de ela ter aceito o 
convite para passar os feriados com a famlia dele.
  linda!  disse ela , agradea-o por mim, por favor.
 Foi o conde que a mandou para a senhorita  respondeu Lcia  Elas so cultivadas 
aqui... na Villa Falcone.
Suzanne deixou cair a rosa como se os espinhos a tivessem ferido de repente. Mazzaro no 
tinha o direito de enviar-lhe flores. Ficou com raiva dele por coloc-la numa situao ambgua 
com esse gesto. A no ser que... a no ser que ele a tivesse visto na sacada durante a 
madrugada e esse fosse seu modo de dizer que a vira. . .
 Bem... muito obrigada, Lcia  disse, servindo-se de suco de laranja , e se encontrar 
Pietro, por favor, diga a ele que no vou demorar.
 No se preocupe, senhorita  respondeu, andando em direo  porta.  Pietro foi levar a 
me at a cidade. A missa ainda vai demorar.                      
 Mas  claro! Suzanne, sentiu um frio na boca do estmago. Era sexta-feira  Santa. Se ela 
no tivesse dormido demais poderia ter ido com eles.
 Foi  .. eles... quer dizer, onde est Sophia? 
Lcia deu de ombros.
 A condessa raramente se levanta antes do meio-dia. Pode ficar descansada. A senhorita 
est aqui para aproveitar os feriados, no ? sorriu. At mais tarde.
Enquanto tomava o caf observava a rosa. Sem dvida era o mais ito espcime que j vira. 
As ptalas eram aveludadas e a cor, maravilhosa. Mas por que ele a enviara? E por que seu 
corao batia daquele jeito cada vez que pensava em Mazzaro?
Colocou a bandeja de lado e saiu da cama. Parou diante da porta Ia mirada, um tanto indecisa. 
No podia sair na sacada com aquela camisola transparente. Ser que fora realmente um 
sonho? Ser que estava mesmo Mazzaro caminhando sem as muletas? Ou teria sido fantasia 
de sua imaginao?
Apesar do tumulto de pensamentos, nada poderia estragar o prazer que aquela vista 
magnfica lhe causava. Ao longe as montanhas rtas de pinheiros e com neve nos picos. Perto, 
um riacho cascateante que avanava pelo vale, at sumir de vista. Em volta, os campos 
coloridos por bocas-de-leo que brilhavam ao sol.
Mas o que mais a encantava na verdade era a prpria Villa com paredes de pedras douradas 
pelo sol. Ouviu o rumorejar da fonte e sentiu vontade de mergulhar os dedos no frescor da 
gua. Olhou com intensidade toda a paisagem como se quisesse gravar e afastou-se da 
janela.
Ao lado do quarto havia um banheiro, que deveria ter sido uma adaptao moderna, contudo 
a construo em mrmore no destoava do conjunto. Suzanne tomou um banho demorado de 
chuveiro, deixando a gua quase fria, pois sentia calor, e s ento comeou a desfazer sua 
mala e arrumar cuidadosamente as coisas.
Era difcil decidir o que vestiria. Normalmente colocaria um jeans e uma camiseta, mas no 
poderia se vestir to informalmente numa Villa como aquela. Ou seria por causa da sra. Vitale? 
Sem dvida aquela senhora no aprovaria um traje daqueles. Acabou optando por saia e 
blusa e umas sandlias, que tornavam suas pernas bem feitas ainda mais elegantes. Escovou 
os cabelos lisos, deixando-os soltos sobre os ombros. Colocou uma correntinha com medalha 
de ouro e decidiu fazer uma maquilagem bem leve. Antes de sair do quarto, aproximou-se de 
novo da cama e olhou para a rosa que ainda estava na bandeja. Fez meno de peg-Ia mas 
desistiu. Fosse o que fosse que Mazzaro estivesse tramando, ela no iria participar. Era 
melhor devolver a rosa como sinal de que no se envolveria. Mas apesar dessa resoluo 
sentia que com esse gesto Mazzaro a tirara do srio, coisa que nunca acontecera antes nem 
mesmo diante das insistentes investidas de Abdul. Ele a perturbava como nenhum homem 
jamais conseguira. Mas isso era ridculo. Ela estava fantasiando demais o que para ele no 
deveria ser mais do que um gesto comum ao romantismo dos italianos. Se ela no o tivesse 
visto caminhar no ptio durante a madrugada, talvez no pensasse em tantas implicaes. 
Acabou deixando a rosa na bandeja e desceu.
Havia uma escada de mrmore que descrevia uma curva antes de desembocar no saguo. 
Na noite anterior mal pudera apreciar a beleza do local, devido ao cansao e  penumbra. 
Agora,  luz do dia podia observar melhor. Teve vontade de examinar mais detalhadamente, 
mas lembrou-se de que era uma convidada e no uma turista e resolveu ir para o salo 
esperar Pietro.
As portas do salo estavam fechadas e ela estava hesitando se abria ou no, quando ouviu o 
rudo de metal batendo no mrmore ps se arrastando com dificuldade. Imediatamente soube 
quem era e virou a cabea, nervosa, para ver Mazzaro aproximando-se dela. Usava uma 
camisa vermelho-escura que suavizava de certo modo sua expresso.  luz do dia a cicatriz 
era mais impressionante, como uma pigmentao branca que contrastava com a pele morena. 
Sem querer os olhos de Suzanne fora atrados e foi com esforo que desviou o olhar.
 Bom dia, Suzanne. Espero que tenha gostado do seu quarto e que tenha dormido bem.
Suzanne olhou-o nos olhos, mas no lhe pareceu haver segundas intenes na pergunta.  
  Eu... senti um pouco de calor... mas dormi muito bem, obrigada, conde.
  Fico contente em saber. Gostaria de tomar um caf comigo? Ser que poderia fazer o 
favor de abrir as portas?
Era mais uma ordem do que um pedido, e Suzanne automaticamente adiantou-se e abriu as 
portas. Era o aposento de onde ele sara na vspera. A arrumao era bastante pessoal e 
aconchegante. Entretanto, ele fez um sinal com a cabea, indicando que ela deveria fechar a 
porta. Ela ficou sem jeito, mas obedeceu. Sentia que estava numa situao delicada e 
desejava ter ficado no quarto at Pietro voltar. Mas como iria adivinhar que encontraria 
Mazzaro? Agora a soluo era enfrentar.
Mazzaro a examinava minuciosamente com um olhar perturbador que lhe causava uma certa 
agitao interior. De repente, ela percebeu que nunca sentira isso antes. E ela convivera com 
vrios homens, ricos, bonitos, de todos os tipos, idade e nacionalidade; era portanto, absurdo 
sentir aquilo por um conde italiano de meia-idade, que se arrastava com muletas e cujo rosto 
assustaria uma criana.
  Por acaso meu rosto desfigurado lhe causa repulsa, Suzanne? perguntou Mazzaro, e s 
ento ela percebeu que ele interpretara mal a manifestao de sua emoo.
 No  respondeu enrubescendo , de modo algum. 
 No mesmo?  A voz era ctica.   Mas parece que voc est com medo de ficar sozinha 
comigo... 
 No...  que eu estava pensando a que horas Pietro vai voltar
 Bem .. de qualquer modo no vai ser j, portanto, por que no senta?  Indicou-lhe uma 
poltrona.  Ou prefere ficar pronta para correr? Pode ficar sossegada que voc ganha de 
mim fcil.
Suzanne enrubesceu. Afastou-se da porta e sentou-se cruzando as pernas, mas descruzou-a 
logo em seguida quando percebeu que a perna estava exposta demais aos olhos dele. 
Mazzaro sentara-se diante dela assumindo imediatamente aquele ar de comando e 
autoridade que ela vira na noite anterior.
Por alguns instantes ele ficou em silncio, com as mos morenas e elegantes descansando 
no brao da poltrona. Na mo esquerda brilhava um anel com o braso da famlia. Suzanne 
percorria a sala tom o olhar, descobrindo objetos de arte antigos. 
 Faz muito tempo que conhece meu primo? 
 Como?!... ah! No... no faz muito tempo. 
 Quanto tempo?
 Acho que mais ou menos uns dois meses. 
 ... pouco tempo mesmo. Voc acha que conhece bem Pietro? 
 Bem? Conheo o que  possvel nesse espao de tempo. 
 Voc acha que para conhecer bem uma pessoa o tempo  importante?
 Ora,  claro.  Ela hesitou.  Voc no acha? 
Ela no chegou a responder, pois naquele momento bateram  porta e Suzanne suspirou 
aliviada. Mas era apenas Lcia que viera trazer o caf. Havia apenas uma xcara e ele pediu 
outra. Suzanne sentiu-se mal com o olhar de curiosidade com que Lcia olhou para os dois.
Enquanto isso, Mazzaro serviu o caf e estendeu a xcara a Suzanne. Ela baixou os olhos, 
sentindo que ele a olhava com intensidade Lcia voltou com a outra xcara e retirou-se com 
um sorriso enigmtico. Suzanne achou que era um bom momento para perguntai por que ele 
enviara aquela rosa para ela. Afinal, Lcia parecia estar interpretando mal o relacionamento 
deles e s Deus sabia o que poderia acontecer, com mexericos e tudo o mais. Ergueu os 
olhos, determinada, e encontrou os dele.
 Vi que voc estava admirando minha estatueta. Voc conhece escultura?
  de bronze, no ? ...  italiana? 
 No...  Ele sorriu e ergueu a pequena estatueta at a altura do rosto.  Isso foi feito no 
Egito, h muitos sculos.  de bronze sim, mas a maioria dessas peas antigas veio da 
Grcia ou do Norte da frica. Parece que os romanos infelizmente no tinham grande 
habilidade em relao  arte, contudo sabiam reconhecer e apreciar objetos com valor 
artstico.
 Isso deve ser valiosssimo  murmurou Suzanne, inclinando-se para a frente.
 Isto no tem preo. Pelo menos para um bom colecionador como eu.  Ele lhe estendeu a 
estatueta.  Gostaria de examin-la de perto?
Suzanne arregalou os olhos.
 Mas... tenho at medo de toc-la Ia.
  Tenho certeza de que no derrubar.  um pequeno sorriso tornou os lbios dele 
sensuais.  Vamos, pegue!
Mais uma vez parecia estar dando uma ordem. Suzanne largou a xcara e pegou a estatueta. 
As mos deles no se esbarraram, mas o bronze ainda estava quente com o calor dele.
 Voc no tem medo que algum roube? Mazzaro deu de ombros.
 Sem dvida ficaria aborrecido se ela desaparecesse. Mas, s vezes, me pergunto se tenho 
o direito de guardar para sempre um objeto desses. O que me d o direito de possuir algo que, 
na verdade no pertence a ningum?
 Mas deve ter pertencido  sua famlia durante...
 muito tempo, eu sei. Mas isso no altera a situao. Sem dvida meus ancestrais eram 
grandes aproveitadores que tiravam vantagem da ignorncia dos outros.
Suzanne olhou para a estatueta, acariciando-a de leve. 
 Nem todos apreciam coisas desse tipo.
 Voc est defendendo meus ancestrais... ou pretende defender a minha honra?
 Tenho certeza de que apesar do que disse no gostaria de ver a estatueta nas mos de 
algum comerciante insensvel.  Olhou-o nos olhos.  Voc gostaria?
Mazzaro olhou para as mos dela, que ainda acariciavam a pequena escultura.
 Parece que meu egosmo j foi recompensado. Ser que vai ser assim to atenciosa com 
tudo o que  meu, Suzanne?
Suzanne percebeu o duplo sentido das palavras e apressou-se em colocar a estatueta no 
lugar. Por que ele lhe dizia coisas assim?
Por que as palavras dele a afetavam tanto? Gostaria que no fosse assim.
 0 que houve, Suzanne? Se isso a deixa mais tranqila, saiba que a Companhia de Seguro 
exige que a casa tenha um alarme eletrnico. Qualquer pessoa que se aproxime  registrada 
pelo transmissor ultra-snico e o sistema de alarme dispara.  impossvel evitar que dispare.
 Ah... sei. 
Suzanne estava impressionada. Como  que ela abrira a porta da sacada sem que nada 
houvesse? Ser que um ladro no poderia entrar por ali do mesmo jeito?
 Por que esse ar to srio, Suzanne?  perguntou ele, enquanto pegava as muletas e se 
levantava.  Ser que est preocupada com alguma coisa?
Suzanne mordeu o lbio. A estava de novo sua chance. Ser que ai deixaria escapar pela 
segunda vez?
 Eu. . . eu estava pensando... o que aconteceria se algum de casa esquecesse do sistema 
de alarme e sasse l fora?
Mazzaro aproximou-se com o olhar ainda mais intenso.
 Tal como voc fez ontem, Suzanne?
Ela arregalou os olhos assustada e gaguejou.
 Voc... sabe?
Que voc saiu na sacada s duas horas da madrugada? Eu sei.
 Sim.
 Mas ento sabe tambm que eu. .. que eu.. .
 Me viu andando sem isso?  ergueu uma das muletas.  Sei, sim, Suzanne.
Suzanne quis se levantar, mas se o fizesse ficaria muito perto de Mazzaro, que j estava bem 
prximo.
 Mas. .. no entendo...
 No.  Ele inclinou a cabea e olhou diretamente para os seus olhos.  E como poderia 
entender?
 Voc no precisa dessas muletas, afinal?
 No. Agora, no mais, embora s vezes me sinta cansado e elas me ajudem a caminhar.
Suzanne apertou os lbios.
  E voc no se importa que eu saiba? Por que deixou que eu o visse?
Ele deu de ombros.
 No foi de propsito. Ouvi o alarme na minha cabeceira e instintivamente sai sem pensar 
em nada.
 Mas, e se fossem ladres?!
  Sua preocupao me comove, Suzanne, mas acontece que eu estava armado.
 Voc no quer que eu conte a Pietro,no ?
 No posso impedi-la.
 Mas por que voc mesmo no contou? A sua esposa teria achado maravilhoso, sem 
dvida ficaria muito contente...
Mas de repente algo na atitude dele fez com que ela percebesse que estava indo longe 
demais.
  No precisa se preocupar com o que sente minha esposa, Suzanne  disse secamente e 
afastou-se com certo sacrifcio dela. Ele continuava encurvado e apoiado nas muletas. Ela 
comeou a imaginar uma histria um tanto misteriosa.
 Voc prefere... que eu guarde segredo?
Ele estava em silncio, de frente para as janelas e de costas para ela. Ficou assim por algum 
tempo at que disse calmamente, virando-se.
  Digamos que tenho minhas razes para no contar nada por enquanto. Mas se voc acha 
que no pode guardar meu segredo eu no vou recrimin-la por isso.
Suzanne ergueu-se, apertando as mos.
 Por que enviou a rosa? 
Ele virou-se, com um olh|r irnico.
 Foi muito atrevimento de minha parte?  claro... um homem como eu deve entender suas 
limitaes, no se mostrar vulnervel aos encantos de uma bela mulher, e no deve prestar 
homenagens ... no  isso mesmo?
Suzanne respirou fundo.
 No sei o que voc quer dizer.
 Eu posso ser aleijado, mas no sou cego. E, alm disso, eu queria provocar essa conversa 
entre ns, que por sinal foi bastante proveitosa.
 Mas...  Suzanne hesitou.  O que tem sua aparncia a ver com o fato de ter me 
mandado uma rosa? 
0 rosto de Mazzaro se contraiu.
 Por favor, no me insulte fingindo inocncia.
  Peo que me desculpe se me expressei mal. S que no percebo a relao entre uma 
coisa e outra.  Fez uma pausa prolongada.  Eu no acredito que a aparncia fsica seja 
mais importante que  personalidade.
  Percebe-se que no tem experincia nesse assunto. Voc vai acabar descobrindo que a 
aparncia  muito importante. Uma mulher bonita tem muito mais segurana do que outra 
menos favorecida, e isso determina at o curso que toma a vida do indivduo. As mais feias 
em geral se tomam inseguras e amargas. Ns somos julgados pelo conjunto de todos esses 
elementos. Do mesmo modo que as rosas, no ?
  No!  exclamou ela com veemncia.  Voc no  inseguro nem amargo!
  E voc acha que eu deveria ser?
  No! Eu teria pena de algum que merecesse...
  Piedade?  completou ele.  Mas voc no acha que eu mereo piedade, acha?
Suzanne olhou-o.
  No. Eu no sinto pena de voc, Conde di Falcone  disse lenta e pausadamente.
Houve um momento de silncio em que ela ficou pensando. Ser que fora muito rude? Ser 
que ele se ofendera com as opinies dela?
Mas ele falou de novo.
  Pois bem, Suzanne... ento agora sabemos em que terreno estamos pisando no ?
Suzanne no sabia o que responder. Suas emoes eram confusas. Tinha a impresso de 
que algo estava lhe acontecendo, ali, naquele momento. E que ela no tinha nenhum controle 
sobre essas sensaes. Era como se ela estivesse se vendo numa tela. Estava consciente do 
perigo de se envolver com esse homem, mas no podia fazer nada para impedir os 
acontecimentos.


CAPITULO III


A porta abriu-se repentinamente e Suzanne sentiu alvio ao mesmo tempo que lamentou a 
intruso. Virou-se e viu a filha de Mazzaro que entrara correndo, chamando "papai" e 
estancara meio sem jeito ao deparar com ela. Lcia entrou logo em seguida. Mazzaro ergueu-
se, assumindo sua postura normal.
  Elena!  repreendeu ela em italiano.  Quantas vezes j Ihe disse para no entrar no 
escritrio de seu pai sem antes bater?!
 Senhor...
  No tem importncia, Lcia. Pode deix-la conosco. Creio que minha tia j voltou da igreja, 
no ?
  Sim, senhor. Desejam mais caf?
  No, obrigado, Lcia.
Elena ficou parada diante da porta com o chapu nas mos. Suzanne procurava 
desesperadamente algo pra dizer  menina. Era evidente que a menina estava constrangida, 
e talvez devido  presena dela.
  Voc j foi apresentada a Suzanne, Elena?
 A menina olhou para Suzanne mas no respondeu.
 Elena e eu j nos vimos ontem  noite, no , Elena? 
A menina continuou em silncio batendo com o chapu no vestido. 
 Elena! 
A voz de Mazzaro tornou-se impaciente e a menina olhava-o com ansiedade.
 O que, papai?
 Perguntei se voc j foi apresentada a Suzanne. 
Elena mordeu o lbio. 
 No, papai.
 Ser que isso  necessrio?  exclamou Suzanne.  Elena estava com sua tia ontem  
noite. 
Mazzaro olhou-a com frieza. 
 Mas voc no foi apresentada  minha filha, foi? 
 Formalmente, no  Suzanne cerrou os punhos e andou em direo  porta.  Se me d 
licena, senhor, sua tia j voltou da Igreja e, sem dvida, Pietro tambm.
 Espere um minuto, Suzanne. 
0 poder de comando que ele tinha assustava Suzanne e ela ps a mo no trinco decidida a 
no se deixar intimidar. Mas ele a alcanou e colocou a mo em seu brao, detendo-a. Uma 
das muletas caiu e Elena correu para peg-la.
 0 que vai dizer a Pietro, Suzanne?  perguntou ele e Suzanne desvencilhou-se da mo 
dele, aliviada, assim que Elena estendeu a muleta.
 Estou aqui s por uns dias, senhor conde. Eu no vou interferir em nada.
E antes que ele pudesse impedi-la, abriu a porta e saiu.
Atravessou o saguo com passos vacilantes, abriu a porta de entrada e saiu para a luz do dia. 
A luz era ofuscante. Respirou fundo e comeou a caminhar pelo ptio. Foi atrada pela fonte 
como um m.
A gua refletia o sol. Ela inclinou-se, admirando a escultura clssica de uma ninfa, e 
mergulhou os dedos na gua. No olhou para a janela do escritrio de Mazzaro, mas tinha a 
sensao de estar sendo observada. Ergueu os olhos e sentiu-se frustrada quando encontrou 
a janela vazia. No havia ningum l observando-a, o que a fez sentir-se uma tola. J ia se 
virar novamente quando um movimento acima da sua cabea atraiu-lhe a ateno. Ergueu os 
olhos e deu com Sophia, na sacada, que a estudava com um ar curioso.
Suzanne no pde reprimir uma exclamao de susto. Constatou imediatamente que Sophia 
acabara de se levantar. Os cabelos ruivos estavam despenteados e ela usava um penhoar de 
seda que revela as formas de seu corpo.
  Bom dia, condessa.
  Bom dia, Suzanne  Suzanne teve a impresso de que Sophia no gostara muito de ser 
surpreendida observando-a.  Voc  uma adoradora de Afrodite?
  Afrodite?  Suzanne piscou, mas de repente, olhando para fonte, compreendeu.  Ah! 
Voc est se referindo  esttua. . .
  Se  assim que voc se refere a ela. . .  disse secamente. A palavra esttua implica 
numa idia de distncia, de pedestal, estar fora do alcance. Os adoradores de Afrodite no 
aceitariam essa imagem.
Suzanne no tinha a menor inteno de estabelecer uma discusso sobre o assunto. Acabara 
de sair de uma situao tensa e no desejava criar uma outra. Respirou fundo e disse:
  A manh est linda, no ? 
Sophia contraiu os lbios como se tivesse ficado desapontada com o fato de Suzanne mudar 
de assunto.
  J vi muitas manhs como esta  respondeu e, num movimento majestoso, atravessou a 
sacada e entrou no quarto. Seria aquele quarto s dela? Ou ser que ela dormia no mesmo 
quarto do conde? Suzanne no gostou da emoo que esse pensamento provocou neIa... 
Olhou de novo para a fonte, mas os olhos da deusa de mrmore pareciam ler seus 
pensamentos e rir deles. Ela se sentiu constrangida e resolveu afastar-se dali.
  Ah! Ento voc est a?! Estive procurando voc pela casa toda.
Suzanne nunca achou to agradvel ouvir a voz de Pietro. Virou-se para ele contente de v-lo.
  Procurou mesmo, Pietro?
  Procurei, sim. Mame quer que voc venha tomar um chocolate com ela. Voc sentiu 
minha falta?
Suzanne teve medo de responder que sim e ser mal interpreta por Pietro, por isso optou por 
uma resposta que no a compromete-se.
  Lcia me disse que voc tinha ido  missa. Pena que eu no estivesse acordada, seno 
teria ido junto.
  No pensei que voc quisesse ir. Foi bom ter dormido bastante, assim descansou bem. s 
vezes a gente estranha a cama, mas acho que por causa do seu trabalho, voc j acostumou 
a dormir cada dia numa cama.
 Acho bom voc no repetir isso na frente de ningum. Podem Interpretar mal...  disse ela 
com malcia na voz e os dois caram na risada. Nesse momento chegaram ao salo onde a 
sra. Vitale os esperava.
Lcia serviu chocolate com biscoitos e, embora Suzanne preferisse uma bebida refrescante, 
aceitou a hospitalidade da velha senhora educadamente. Lcia lanou-lhe um olhar cmplice. 
Ela devia estar imaginando coisas devido  situao que Mazzaro criara. Suzanne
sentiu um certo mal-estar e disfarou servindo-se de um biscoito.
Contudo, Pietro no percebia nada. Ele e a me pareciam ter muito a dizer depois de tantas 
semanas de separao, mas procuraram um assunto do qual Suzanne pudesse participar. E 
ela acabou relaxando.
No momento em que Pietro se ofereceu para mostrar a Suzanne os Jardins, Sophia entrou. 
Estava arrumada com esmero e elegncia.
Beijou a sra. Vitale, beliscou de leve e com intimidade o rosto de Pietro e sorriu para Suzanne. 
No havia nela o menor trao da petulncia de alguns instantes atrs.
 Vou sair, tia Tommasa  avisou ela, provocando um protesto de desapontamento de 
Pietro.  Eu preciso, meu caro  acrescentou, virando-se para ele.  Eu prometi. Voc sabe 
como .
 Mas eu acabei de chegar, Sophia!  reprovou ele e ela beliscou de novo o rosto dele, 
olhando-o com uma certa satisfao mal disfarada.
 Voc vai ficar vrios dias, Pietro  retorquiu ela com um olhar cheio de promessas e 
Suzanne percebeu, constrangida, que o relacionamento deles tambm era ambguo, como 
tudo mais ali. Ser que isso tinha algo a ver com a atitude de Mazzaro em relao  esposa? 
Mas no podia ser! Sophia deveria ser quase dez anos mais velha do que o primo do marido!
Suzanne percebeu que a me de Pietro observava a conversa dos dois com desagrado. Ser 
que ela tambm desconfiava do relacionamento deles? Ou ser que ela s estava com cime 
do ar de proprietria que Sophia assumia quando falava com o filho dela? Sophia afastou-se 
dele em direo  porta.
 Ns nos veremos na hora do jantar, Suzanne  disse com um sorriso.  At logo, tia. At 
logo, Pietro.
 Sophia vive saindo...  reclamou a sra. Vitale assim que ela saiu. Olhou para o filho com 
impacincia.  E voc no devia incentiv-la.
Pietro enrubesceu e Suzanne ficou com pena dele. Afinal ele no era mais uma criana para 
que a me se julgasse no direito de humilh-lo com uma reprimenda na frente de visitas. Ela 
resolveu salvar a situao e ergueu-se decidida.
  Voc no ia me mostrar os jardins, Pietro?
  , vou sim  respondeu ele, olhando-a com gratido.  Com licena, mame.
Enquanto caminhavam l fora, Suzanne olhou Pietro de soslaio. Ele estava calado e Suzanne 
imaginava se era por causa da me dele ou se ele estava pensando em Sophia. Fosse o que 
fosse, no devia ser agradvel para ele e ela resolveu quebrar o silncio.
  Como foi o acidente de seu primo? Ele lhe lanou um olhar vazio e, depois de alguns 
instantes, falou em um tom seco.
  Ele caiu de um penhasco.
  De um penhasco?! Mas como...
  Esquiando  retrucou Pietro sucintamente.  Ele foi um excelente esquiador.
  Ahn...  Suzanne ficou sria. Ela havia imaginado um acidente de carro. Nem lhe passara 
pela cabea esse esporte.
  Ele sempre passava vrias semanas em Cortina... at o dia em que caiu. Agora ele nem 
quer ouvir falar do lugar e nunca mais passou nem perto.
  Voc no pode critic-lo por essa atitude.
  Por que no? Ele estava bbado na ocasio do acidente. No deveria ter subido. Se 
estivesse no estado normal no teria cado. ele era bom demais.
  Como pode ter certeza? Voc  to insensvel!... Ele poderia ter morrido!
  Quer dizer que agora ele arranjou uma defensora, ? Suzanne seria bem mais simples 
para todos...
  No!  Suzanne interrompeu com veemncia.  No diga isso. Nem pense numa coisa 
dessas. S porque voc no concorda com o apego que ele tem pela herana dele..
 Herana dele!  riu sarcstico.  Objetos inanimados! Esse lugar  um museu. Meu primo 
 o homem mais egosta que conheo, Suzanne. Voc viu como ele se comporta... como ele 
trata a esposa. Sem dvida voc no pode fechar os olhos a essas coisas!
Suzanne baixou a cabea para que Pietro no percebesse como essas palavras a haviam 
afetado. O que ele dissera era verdade... pelo menos quanto a Sophia. Mas sempre h dois 
lados para um fato.
Ela compreendia o que levara Mazzaro a abrir as portas da casa ao pblico. Por que ele 
haveria de vender coisas das quais gostava se podia sustentar a famlia com o que recebia, 
permitindo que turistas interessados apenas as vissem? Durante a conversa daquela manh 
ela sentira instintivamente que Mazzaro gostava que compartilhassem seu deleite pelas obras 
de arte que possua. E isso no era uma atitude egosta. Continuando a linha de seus 
pensamentos ela arguntou em voz alta.
 Ele ficou muito mal quando caiu?
 Muito mal? - repetiu Pietro contrariado.  Voc quer uma lista dos ferimentos que ele 
sofreu?  ele bufou.  Pois bem, ele quebrou as duas pernas e machucou a espinha. Ficou 
em uma cadeira de rodas por mais de um ano, depois que voltou do hospital.  E... e a 
cicatriz? 
Pietro suspirou.
 No ponha lenha na fogueira, Suzanne... no me faa entrar em detalhes!  passou a 
mo pelos cabelos, irritado.  Eu no sou desumano... sei que ele deve ter sofrido muito. 
Mas isso no justifica o comportamento dele com relao a Sophia... e mesmo a mesquinhez 
dele. Voc j deve ter percebido!
Suzanne empurrou os cabelos para trs das orelhas. Estranho, mas repentinamente percebeu 
que no se importava nem um pouco com o que Sophia poderia sentir com tal tratamento. Ela 
ainda estava arrepiada com as imagens horripilantes que as palavras de Pietro haviam 
suscitado. Imagine s o estado em que o trouxeram aps o
Incidente! Qual teria sido a reao de Sophia quando descobriu a gravidade dos ferimentos?
De repente percebeu que Pietro estava olhando para ela e afastou as imagens com um leve 
tremor de ombros. Olhou em redor procurando algo que pudesse servir de motivo para 
perguntas e descobriu, aliviadai, um caramancho coberto de parreiras.
Pietro hesitou um instante antes de aceitar a sbita mudana de humor mas afinal respondeu.
 Foi a me de Mazzaro que planajou.  uma espcie de pavilho. Parece que durante a 
guerra usaram-no como abrigo, quando a VilIa foi ocupada por militares.
 A Villa foi ocupada?
  Todas as Villas foram usadas como quartis pelos oficiais do alto-comando  explicou 
Pietro.  Na Inglaterra tambm aconteceu isso, no foi?
  Exatamente!
  Meu tio teve sorte de o comandante ser um homem civilizado, porque nessa poca vrias 
obras de arte foram destrudas ou roubadas.
Haviam chegado aos degraus de pedra que conduziam ao interior do caramancho. Suzanne 
afastou as plantas e entrou. Havia um cheiro de mofo e a vegetao tomara conta de tudo. 
Trepadeiras subiam pelas colunas. Um banco de pedra acompanhava as paredes mais baixas 
e estava cheio de insetos e teias de aranha.
  A me de Mazz... de seu primo j morreu?
  J. Meu tio morreu quando o avio que ele piloiava caiu nos Alpes em 1968 e ela sofreu 
um colapso cardaco e acabou morrendo seis meses depois.
  Deve ter sido horrvel... para seu primo. 
- Hum  Pietro franziu o cenho.  Ele e Sophia moravam em Roma quando o pai morreu. 
Mazzaro estava muito bem, trabalhando com um dos grandes leiloeiros.
  Leiloeiro de antigidades?            
  Naturalmente! Meu primo  professor de Histria da Arte, voc no sabia?  suspirou.  
Mas  claro que no! Como poderia? 
 Desculpe, Suzanne. Parece que toda vez que falamos no  meu primo acabo me tornando 
rude com voc.
Suzanne desceu os degraus segurando a mo que ele lhe entendia.
   pena que no cuidem do caramancho... - murmurou, olhando para trs, enquanto se 
afastava.
Pietro deu de ombros.
  Luigi j tem trabalho demais mantendo os jardins limpos para os visitantes  chutou uma 
pedrinha. -  isso que est errado, aqui. Muita coisa para fazer e nenhum dinheiro para fazer 
o que precisa!
Suzanne umedeceu os lbios.
   claro que Lcia no pode se ocupar da limpeza da Villa toda sozinha!
  Durante a temporada turstica, no. Mazzaro permite que ela contrate moas da aldeia 
para ajud-la. Mas  ele que lida com as coisas mais valiosas. D um trabalho incrvel manter 
tudo em ordem.                               
  E o que voc queria que ele fizesse?
  Eu? Eu venderia tudo! Ser que voc no percebe que vendendo o que tem dentro dessa 
casa viveramos luxuosamente at o fim de nossas vidas?
  E depois?
  Depois?!...  Pietro no compreendeu.
  , depois. Depois que vocs todos morrerem. Dinheiro parado no dura para sempre. E o 
que vai ser dos filhos de seu primo. . . e dos netos?
  S tem Elena.
  Mas ela pode casar e ter filhos. Voc acha justo priv-los de tudo isso?
  Meu Deus!  Pietro ergueu os olhos para o cu.  Voc fala como ele! Quem pode saber 
o que vai acontecer antes que Elena se transforme numa mulher? Pode haver uma guerra. . . 
um holocausto. Pode ser que ningum sobreviva. O que importa  o presente, e no um 
nebuloso futuro.
  Eu ro concordo. Se essas coisas fossem vendidas para colecionadores que as 
fechassem em cofres, ningum mais as veria. Voc no pode deixar de considerar esse 
aspecto. Pelo menos aqui as pessoas podem olh-las e admir-las...
Pietro estava abismado.
  E voc acha que isto  certo? 
Suzanne enrubesceu.
  Bom, pelo menos acho que  justo. E tenho certeza de que a sua sugesto est errada.
  Por qu? No ser errado uma pessoa possuir tanto? Suzanne suspirou.
  No  to simples assim, Pietro.
  No ? Ser que meu primo se aproveitou da minha ausncia hoje de manh para 
conquistar seu apoio? Ontem voc no estava do lado dele. ..
A observao fez com que ela se sentisse culpada. 
- Do lado dele! No seja tolo, Pietro!
  Por que tolo? Conheo meu primo melhor do que voc, Suzanne. Ele sempre teve. . . 
como  que se diz mesmo?. . . carisma, no e? Atrao sobre o sexo oposto!               
Pietro, voc est se tornando ridculo. . .
  Por qu? Voc  capaz de negar que o est defendendo? 
Suzanne ficou contente de chegar ao terrao.
 A que horas  o almoo?  perguntou ela, enquanto entravam na casa, recusando-se a 
continuar discutindo o assunto. Depois de alguns instantes em silncio, Pietro esboou um 
sorriso envergonhado. 
 Est vendo?  disse ele.  No podemos falar sobre Mazzaro sem ficarmos com raiva.                           
 Precisamos aceitar nossas diferenas de opinies  Suzanne procurou falar num tom 
suave.  Acho que vou subir e tomar um banho de chuveiro. Estou morrendo de calor depois 
desse passeio.
  Est bem.  O almoo  s duas horas  disse Pietro abrindo a porta do salo.  Voc 
sabe onde  a sala de jantar, no sabe?
  Sei.
Suzanne atravessou o saguo principal e subiu as escadas rapidamente. Enquanto 
caminhava, decidiu-se terminantemente a expulsar da mente qualquer pensamento que se 
referisse a Mazzaro.
O quarto dela estava arrumado. As roupas todas no armrio. Antes de entrar no chuveiro, 
entretanto, resolveu sair na sacada. O ptio estava deserto; a Viila toda parecia entorpecida 
no calor da tarde. Ouvia-se ao longe um dobrar de sinos, sonolento, no ar parado.
Com um suspiro decidiu afastar-se, mas nesse momento percebeu que os aposentos em 
frente aos seus estavam vedados a olhos curiosos e ela se perguntou de quem seriam. 
Pareciam no pertencer  parte que era aberta ao pblico.
Parecia impossvel no pensar naquele homem, proprietrio da Villa, por isso resolveu abrir 
s a torneira de gua fria, e bem forte, como se quisesse congelar as indesejveis emoes 
que ele despertava nela. Tentou imaginar o que ela sentiria por ele se o tivesse encontrado, 
como hospede, em um dos hotis em que trabalhava. Nos vrios lugares em que estivera a 
servio, encontrara homens e mulheres com defeitos fsicos de todos os tipos. Mas o estranho 
era que com Mazzaro era diferente. Ela no pensava no defeito dele. Ela apenas o sentia 
como um homem, no sentido total da palavra, tanto mental como fisicamente...


CAPTULO IV


Naquele dia, Suzanne no viu mais nem Mazzaro nem Sophia. Na hora do almoo havia 
apenas quatro pessoas  mesa: ela, Pietro, a sra. Vitale e Elena.
Suzanne no podia deixar de sentir certa curiosidade em relao a Elena. Sem dvida ela era 
uma criana bem-comportada, como  comum entre crianas de seu meio social que vivem 
com adultos. Mas Elena era mais retrada do que o normal para uma menina da idade dela. 
S falava quando lhe dirigiam a palavra e mesmo assim por monosslabos. A nica centelha 
de entusiasmo que Suzanne vira fora na noite de sua chegada, mas a sra. Vitale se 
encarregara de extingui-la imediatamente. Ela gostaria de ter podido conversar com a menina, 
de descobrir suas preferncias e as coisas de que no gostava e at mesmo poderia ter 
brincado com ela.
Mas Elena comeu e desapareceu para fazer a sesta, tal como lhe indicara a sra. Vitale. E 
assim perdeu-se mais essa oportunidade de comunicao.
Durante a tarde, Pietro levou Suzanne at a cidade e lhe mostrou a igreja onde estivera de 
manh.
  Uma vez li em algum lugar que as pinturas no teto das igrejas fazem com que os fiis 
olhem para cima e atravs delas dirijam seus sentidos para o infinito, para a vida do outro 
mundo  observou Suzanne, olhando para cima.. Voc concorda com essa opinio?
Pietro deu de ombros enquanto saam da igreja.
  Eu no tenho opinio alguma sobre o outro mundo  disse ele.
 E voc no deveria acreditar em tudo o que l. Suzanne sorriu.
  Est bem, est bem. Mas at que me pareceu bem pensado
 ela fez uma pausa.  Pietro, Elena dorme sempre depois do almoo?
  Elena?  ele franziu as sobrancelhas.  ... acho que sim. Por qu?
 Curiosidade, s isso. Eu pensei que poderamos lev-la a passear um dia, se voc no me 
incomoda. Parece que ela no tem muitas distraes.
  Esse  um assunto que voc deve discutir com meu primo e no comigo  retorquiu ele, 
secamente, conduzindo-a para a praa.
 Eu gosto muito da menina, mas no tenho a menor inteno de desperdiar o tempo que 
temos para ficar juntos distraindo Elena.
Suzanne surpreendeu-se com a veemncia com que ele falou.
  Mas, Pietro! Que diferena faria para ns levarmos Elena conosco?
Pietro parou de repente e virou-se para olh-la nos olhos castanhos, imensos, incapaz de 
resistir ao apelo daquela pele dourada e daqueles lbios suaves entreabertos. Com uma 
exclamao inclinou a cabea e pousou os lbios nos dela.
   por isso  disse ele com voz rouca e a teria beijado de novo se ela no tivesse se 
afastado, impedindo-o.
  Pietro!  protestou ela, empurrando os cabelos para trs das orelhas.  Isso no fazia 
parte de nosso acordo.
  Suzanne!  repreendeu ele.  Voc no vai querer fingir que no sabe o que eu sinto por 
voc, vai?
  Acho que uma xcara de caf nos faria bem  retrucou ela e apressou o passo, cortando 
a conversa.
E quando se sentaram em uma das mesas da praa, sob as rvores, no falaram mais nada. 
Suzanne s pedia a Deus para que no se envolvesse com esse tipo de problema. 
O jantar foi servido tarde e Elena no participou.
  Mazzaro foi jantar com os Rossi adisse a sra. Vitale para Pietro. - Voc sabia que 
Marina voltou para casa?
  No. Ser que ela vai ficar muito tempo?
  Eu tambm perguntei isso. Mazzaro diz que ela tem trabalhado demais. Que precisa de 
repouso. O pai dela  que ficou contente. Quando ela est longe ele sente muito a falta dela.
Suzanne ergueu a taa de vinho e deu um gole. De quem estariam falando? Quem seriam os 
Rossi? E quem seria Marina?
Como se estivesse respondendo a suas perguntas silenciosas, Pietro virou-se para ela.
  Os Rossi so amigos da famlia  explicou ele.  Mazzaro e Marina praticamente 
cresceram juntos, embora ela seja cinco anos mais moa do que ele. Meu tio nutria 
esperanas de que eles viessem a se casar um dia, mas na poca Mazzaro tinha outros 
planos. Ele foi para Roma e casou-se com Sophia e Marina acabou entrando na faculdade de 
medicina e hoje est formada, trabalhando em Roma. Agora as situaes se inverteram.
  Ah, sei.
   claro que hoje em dia o relacionamento deles  bastante discutvel  comeou ele mas 
a me o fez calar-se com uma palavra de reprovao.          
  Por favor, essas coisas no se discutem em pblico, Pietro! Guarde para voc os 
mexericos.
Pietro ficou vermelho.
  Mazzaro no liga para Sophia, mame. Voc sabe to bem quanto eu.
  O que sei  que o acidente de seu primo transformou todos ns. Criou uma tenso, 
atingindo principalmente Mazzaro e Sophia.
  Voc est insinuando que ela teve culpa?
  No estou insinuando nada. Voc  que insinuou que havia algo mais do que amizade 
entre Mazzaro e Marina  ela balanou a cabea.  Era melhor que ficasse de boca fechada.
O rosto de Pietro se contraiu, ressentido, e Suzanne olhou para o prato constrangida. Era 
quase como se Pietro defendesse Sophia por cimes. Suzanne sentiu um aperto no corao. 
Mas por que sentia isso? Seria cimes? Mas de quem?
Na manh seguinte ela acordou cedo. Dormira um sono profundo, apesar de toda a confuso 
de seus pensamentos. s oito horas j estava arrumada. Como vira Sophia vestir cala 
comprida na vspera, resolveu seguir o exemplol e ignorar a desaprovao da sra. Vitale.
Colocou tambm uma blusa bem decotada que revelava a curva de seus seios.
Desceu para tomar o caf e encontrou Lcia passando enceradeira no saguo. Lcia 
surpreendeu-se ao v-la e desligou a mquina.
  Bom dia, senhorita!  exclamou ela.  A senhorita madrugou hoje!...
Suzanne sorriu.
  , acordei cedo hoje, Lcia, mas no quero atrapalh-la.
  Ora, a senhorita no me atrapalha. O patro est tomando caf e a senhorita pode lhe 
fazer companhia.
Suzanne pigarreou.
  O patro?! Quer dizer o senhor conde?
   claro, senhorita. Ele ficar contente com sua companhia. Suzanne hesitou.
  Bom... eu posso esperar... quer dizer...
  No  necessrio, senhorita. Por favor, se acomode que j vou servi-la.
Ela estava num beco sem sada. Respirou fundo e andou em direo s portas da sala de 
jantar, hesitando ainda um pouco antes de bater de leve.
Ouviu a voz quente de Mazzaro dizer-lhe para entrar e ela abriu aporta.
Mazzaro estava, como sempre,  cabeceira da mesa. Usava uma camisa esporte verde que 
deixava ver um pedao de seu peito bronzeado e um pouco peludo. E sem querer o corao 
dela bateu mais rpido diante da imagem sensual. Estava com um jornal nas mos e sem 
erguer os olhos, foi dizendo.
  No quero mais nada, obrigado, Lcia.
Mas ele no estava sozinho. Elena estava ao lado dele passando gelia numa fatia de po e 
ela disse rpido.
  No  Lcia, papai  fazendo com que ele erguesse o rosto num sobressalto.
  Desculpe-me, senhor.. .  murmurou ela desejando sumir num buraco, mas Mazzaro 
simplesmente largou a xcara que ia levar aos lbios e ergueu-se apoiando-se na mesa.
  Bom dia, Suzanne.
  Ah, por favor, no se levante, senhor. Eu... Lcia disse-me para vir para c. Ela me disse 
que o senhor no faria objeo se eu viesse tomar caf junto com o senhor...
  E Lcia estava muito certa  disse ele com voz brincalhona,
apontando-lhe uma cadeira.  Ns no fazemos objeo, no , Elena?
Elena balanou a cabea com um ar inexpressivo. Suzanne fechou a porta e aproximou-se da 
mesa, sentando-se na outra cadeira ao lado da dele. S ento ele se sentou e ela respirou 
aliviada porque aquele instante em que ele ficara em p perto dela fora muito perturbador, a 
presena fsica dele era marcante demais.
  Voc se levanta cedo, Suzanne  comentou ele, dobrando o jornal e afastando-o.
  Por favor, gostaria que no alterasse sua rotina por minha causa - disse ela, olhando 
para Elena de relance.  Continue a ler seu jornal. Eu no me importo. ..
  Mas eu me importo  retorquiu ele. -- No se preocupe, Suzanne, o jornal pode esperar. 
Creio que Lcia est preparando sua refeio.
  Est sim. . , obrigada.
Ela estava inquieta e ansiosa. Mazzaro olhou-a estudando sua fisionomia.
  Espero que tenha passado um dia agradvel, ontem.
  Foi muito agradvel, sim, obrigada.
  Pietro levou-a a passear?               
  Sim.  tarde fomos at a cidade.
  E o que achou de Castelfalcone?
  Gostei. A igreja  muito bonita.
  Ah, sim! A igreja de San Lorenzo. . . Voc entende de arquitetura gtica?
  Infelizmente no  Suzanne sorriu olhando para o rosto solene de Elena.  Sinto-me 
uma ignorante.
  No vejo por qu. Eu no entendo nada de hotis, mas no acho que isso seja algum 
crime!  ele estava evidentemente tentando deix-la  vontade.  Neste pas temos alguns 
exemplos de arquitetura gtica. A catedral de Siena, por exemplo. Naturalmente eu tenho 
obrigao de entender do assunto.
  Por ser professor de Histria da Arte, quer dizer ..  aventurou-se ela.
  Quem lhe contou isso?  perguntou, franzindo o cenho, e ela olhou para as mos, 
nervosa  Deve ter sido Pietro. Por acaso ele tambm lhe falou o que ele acha da minha 
idia de abrir a Villa ao pblico?  
  Ele... parece que falou alguma coisa a respeito. . .  admitiu relutante, ciente de que 
Elena a observava. Desejou que Lcia viesse logo para interromper a conversa.
  Como voc  discreta! Tenho certeza de que Pietro deve ter falado muita coisa sobre isso. 
Mas no tem importncia. Respeito seu desejo de se manter numa posio neutra. No seria 
justo discutir com voc sobre as opinies de Pietro. Ele entende o valor da coleo,  claro, 
mas no fundo gosta de levar uma vida de milionrio e isso acaba atrapalhando sua 
objetividade.
Suzanne procurava desesperadamente algo para dizer que no a comprometesse, quando 
Lcia afinal entrou com o caf, po fresco e suco de laranja. Ela parecia gostar de v-los 
juntos  mesa e Suzanne lembrando-se do episdio da rosa, ficou pensando o que ela 
poderia estar imaginando.
Depois que Lcia saiu e ela comeou a tomar o suco, Mazzaro disse com voz calma.
  O que voc e Pietro planejaram para hoje, Suzanne? Ela ergueu os olhos.
  Parece que hoje de manh Pietro vai levar a me a um lugar chamado Muvano, se no me 
engano.
   Muvano, sim, papai  interferiu Elena.
  E...  continuou S\izanne  e eu estava pensando em lhe pedir permisso para conhecer 
a Villa.
Mazzaro franziu as sobrancelhas, acentuando seu ar malvolo e por um instante ela pensou 
que o havia ofendido. Mas quando ele afinal falou ela entendeu o porqu da expresso.
 Como  que tia Tommasa fica arrastando Pietro para compromissos sociais enquanto a 
namorada dele est aqui? Essa no!  exclamou ele com aspereza.  Ontem foi a missa, 
hoje Muvano. . o que ser que ela vai inventar para amanh?!... Na certa vai querer ir  missa 
de novo. . .
  Eu no me importo. Quer dizer. . .  seus olhares se encontraram  ... foi muita gentileza 
de Pietro convidar-me para passar os feriados aqui, mas. . . bom.. . ns somos apenas bons 
amigos, mais nada. No temos compromisso nenhum. Ele no tem a menor obrigao de ficar 
me fazendo companhia.
Mazzaro lanou-lhe um olhar profundo.
  Voc quer dizer que no liga para Pietro?
   claro que ligo. Eu gosto muito dele, mas. . . mas eu no o amo, se  isso que quer saber.   
De repente ela se deu conta de que essa era uma estranha conversa para ser travada com 
um homem que ela conhecia h apenas trs dias. Felizmente Elena era jovem demais para 
julgar o que estavam dizendo. Mazzaro reclinou-se na cadeira descansando os braos na 
cadeira.
  Muito interessante isso...
  Por qu?  Suzanne olhou-o nos olhos.   perfeitamente natural a amizade entre duas 
pessoas, sem que haja um envolvimento mais profundo.
  , isso  verdade, mas nem sempre. Tenho a impresso de que Pietro est apaixonado 
por voc.
  Ele pensa que est.
  Ento...  ele examinou o rosto dela  voc gostaria de conhecer minha coleo?
  Se no for incomod-lo. .. assentiuela.
  No vai me incomodar nada. S que eu acho que a manh est bonita demais para 
ficarmos dentro de casa olhando antigidades. Elena e eu vamos lev-la para conhecer os 
arredores, est bem?
Suzanne olhou para ele, depois para Elena. A menina esperava impassvel.
  O senhor?!
  Voc faz alguma objeo?! Alis, eu  que fao... no me chame de senhor, est bem?
  Bem... mas...
  Mas o qu, Suzanne. Voc pode recusar se preferir, isso  apenas um convite, no uma 
intimao.
"Recusar se preferir!" No se tratava disso, mas sim do que ela deveria fazer. Ela sentia que 
ele era uma ameaa, mas como poderia dizer isso a ele? Se recusasse ele poderia interpretar 
mal. Poderia supor que era devido  aparncia dele. E no entanto, Mazzaro era o homem 
mais atraente e perturbador que Suzanne j conhecera!
E l estava Elena, que a observava com aqueles olhos escuros, profundos. Ela no queria 
tanto uma oportunidade de conversar com a menina, de faz-la rir? Pois ento, a estava a 
ocasio.
  Se o... se voc quer mesmo fazer isso...  gaguejou ela.
  Se no quisesse, no teria sugerido. Qual  o problema, Suzanne? Ser que agora est 
com medo da reao de Pietro?
  No! Ser um prazer passear com voc e Elena.
  timo  Mazzaro ergueu-se e pegou as muletas e olhou para ela antes de se encaminhar 
para a porta.  Acabe de tomar seu caf, Suzanne. Vou chamar Luigi para preparar o carro.
Elena engoliu rapidamente o ltimo pedao de po e tomou depressa o resto do suco 
enquanto, ele falava e correu atrs dele, mas ele a deteve com uma recomendao.
  Fique aqui e faa companhia a Suzanne at eu  voltar, filhinha  falou calmo mas com 
firmeza.  E fale em ingls, entendeu?
  Sim, papai  Elena voltou para seu lugar.
Apesar de no estar com fome, Suzanne comeou a comer um pedao de po, tentando no 
pensar no que Pietro faria quando soubesse do programa dela. E ele teria direito de achar 
ruim; afinal, se no fosse o convite dele ela no estaria ali. E se a me dele desistisse de ir a 
Muvaro? Nesse momento deu com os olhos de Elena, que a encarava, e dirigiu-lhe um sorriso. 
Pelo menos Pietro sabia que ela desejava se aproximar da menina e poderia entender a 
atitude dela.
  Voc vai  escola em Castelfalcone, Elena?
  Voc gosta de papai?  Elena perguntou por sua vez, to repentinamente que Suzanne 
se engasgou com o caf e demorou um pouco para responder.
  Eu...  claro que gosto de seu pai. Porqu?
  Pietro no gosta  respondeu candidamente.  E voc  amiga dele, no ?
  S porque somos amigos no quer dizer que pensamos igual sempre. E, de qualquer 
modo, acho que voc est enganada. Pietro e seu pai so primos. Em geral primos sempre 
discutem, mas isso no quer dizer nada.
  Mame disse que Pietro queria namor-la...  por isso que ele fica bravo com papai.
Suzanne ficou olhando para ela, abismada, por alguns instantes e depois serviu-se de mais 
caf.
  Voc  pequena demais para entender, Elena  disse sem olhar para a menina.  Agora 
me responda: voc vai  escola em Castelfalcone?
  No. Eu vou  escola em Milo.
  Milo?! Ah!... um colgio interno!
  um convento. Quando papai sofreu o acidente, mame no podia me levar  escola, por 
isso me mandou para Milo.
Era fcil para Suzanne tirar suas prpras concluses. Sophia j deveria ter decidido mand-la 
para o colgio interno e o acidente de Mazzaro proporcionara o pretexto. Mas tambm podia 
ser que Mazzaro  que tivesse decidido assim para que a esposa tivesse mais tempo para se 
dedicar a ele. . . Quando Mazzaro voltou ela j acabara de tomar caf.
  Est pronta?  perguntou ele parado perto da porta. Olhando para ele, Suzanne pde 
entender por que Pietro fizera aquele comentrio. Ele era realmente atraente e sensual e o 
acidente que sofrera no afetara isso em nada.
Elena correu ao encontro do pai, mas Suzanne caminhou lentamente.
  Eu. . . Pietro j acordou?
  Ainda no. Por qu? Ser que voc quer pedir permisso a ele?
 disse ele com voz zombeteira.
  Ora...  ela sorriu.  Estou prontssima!
  timo! Podemos aproveitar bastante saindo cedo. Ah!. .. voc trouxe maio?
 Maio?!  surpreendeu-se ela.  : . . trouxe.
  Ento v busc-lo, Suzanne  retrucou ele, afastando-se da porta com Elena para que 
ela passasse.  No precisa pegar toalha. Eu tenho no carro.
Suzanne subiu sem discutir e pegou o biquni branco, um creme bronzeador e culos escuros. 
Desceu e parou no saguo sem saber bem para onde ir, ento ouviu a voz de Mazzaro.
  Por aqui, Suzanne.
E ela atravessou o saguo e saiu para a luz radiante do dia. Um pouco mais adiante um 
Mercedes cor creme esperava por eles.
  Por favor, entre no carro, Suzanne  disse ele com aquele ligeiro tom de comando que 
fazia com que ela imediatamente o obedecesse.
Luigi abriu a porta da frente para ela. E dessa vez estava amvel, o que a fez supor que o 
empregado no gostava de Pietro. Elena j estava no banco de trs e pela primeira vez 
Suzanne viu o rosto dela iluminado, cheio de animao. Ela parecia muito com o pai quando 
sorria.
Mazzaro estava descendo os degraus e Suzanne afastou o olhar para no ver o esforo que 
ele fazia. Luigi foi ajud-lo, meio hesitante.
  Eu me arranjo sozinho, Luigi - disse ele chegando perto do carro. Colocou as muletas no 
banco de trs e sentou-se  direo.
 Pode deixar! 
Ligou o motor e o carro afastou-se majestosamente. O carro era antigo, mas muito bem-
cuidado. Os assentos de couro estava impecveis.
  Ser que voc no se incomodaria de abrir os portes, Suzanne?  pediu ele e Suzanne 
atendeu-o prontamente.
  Por que no deixou Luigi guiar?  perguntou ela olhando a entrada ngreme.
  Est nervosa, Suzanne?  perguntou irnico, olhando-a de soslaio.  Algumas pessoas 
acham que eu sou. .. digamos, arrojado; mas voc e eu. .. ns sabemos que no  isso, no ?
  Ns sabemos?
  
  Bem...
  No fique tensa, Suzanne  sorriu ele.  Eu lhe asseguro que est a salvo em minhas 
mos.
Suzanne olhou as mos dele, elegantes e morenas, segurando com firmeza a direo e 
realmente sentiu-se segura.
Atravessaram a cidade e comearam a descer em direo ao vale. As janelas do carro 
estavam abertas e o cheiro de pinho entrava com a brisa. De quando em quando flores 
coloridas alegravam a paisagem, quebrando a monotonia do verde. Suzanne estava 
deslumbrada e Mazzaro observava seu interesse.
  Tudo isso j pertenceu  famlia Falcone  disse ele lacnico. Desde aqui at perto do 
Adritico.
  Devem ter sido muito ricos  respondeu com curiosidade.
  E muito poderosos. Eram parentes distantes dos Mediei e devem ter participado das 
matanas.
  Que idia horrorosa!
  Mas verdadeira  insistiu ele e olhou-a nos olhos, sorrindo. Ela precisou desviar os olhos, 
tentando controlar o bater descompassado de seu corao.  A histria da Itlia est cheia 
de selvagerias. Eu sempre me pergunto at onde vai esse verniz de civilizao que 
conseguimos passar sobre nossos instintos bsicos!
Voc acha que  apenas um verniz?
  Voc no acha?
  Nunca pensei nisso.
  Talvez devesse pensar. Isso poderia explicar por que aps vrios sculos e vrias guerras 
os homens ainda conservam um desejo quase patolgico de matar e mutilar.
 Mas nessa linha de raciocnio voc vai ter que admitir que existem outros instintos 
igualmente perigosos  protestou ela.
  E existem  concordou ele  e sendo uma mulher bonita voc deve saber que eu estou 
certo.
Suzanne enrubesceu e olhou disfaradamente para Elena com apreenso. Mas a menina 
estava bem distrada com a paisagem. Ela olhou de novo para Mazzaro, que estava com uma 
expresso zombeteira, o que a fez pensar que ele sabia o que estava provocando nela.
  Voc est caoando de mim... eu... para onde estamos indo?
  Est bem, se nossa conversa est perturbando voc, vamos mudar de assunto  fez uma 
pausa.  Para onde eu a estou levando?! Bem, talvez seja melhor perguntar a Elena. Para 
onde estamos indo, filhinha?
Elena apoiou-se no encosto do banco da frente.
  Para a cachoeira. No , papai?
  . Voc j tomou banho de cachoeira, Suzanne?  ele a olhou com ar de troa.  Aposto 
que no! Mas hoje vai experimentar.
Suzanne estava consciente da emoo que a invadia e dominava toda vez que Mazzaro a 
olhava. Cada pedacinho de seu corpo vibrava com a sensualidade dele. Ainda bem que Elena 
estava junto. Sem ela o perigo era enorme e Suzanne no sabia o que poderia acontecer.
Atravessaram uma outra aldeia e enveredaram por um caminho arborizado e cheio de pedras. 
O carro ia aos solavancos e s vezes precisava se segurar na porta para no cair em cima de 
Mazzaro.; Mas finalmente chegaram.
Mesmo antes de Mazzaro desligar o motor j se podia ouvir o rumor da cascata. Era um som 
maravilhoso e refrescante. O lugar era lindo, cheio de rvores que balanavam com a brisa e 
passarinhos que pareciam conversar entre si, criando uma sinfonia.
  Bom... vamos descer?  disse Mazzaro e inclinou-se sobre Suzanne para abrir a porta do 
lado dela. O brao dele ficou perto de seus seios e essa proximidade provocou nela uma forte 
sensao e, mesmo sem ter olhado para ele, ela percebeu que ele tambm sentira.
Depois ele abriu a porta do lado dele e com um breve movimento saiu do carro e ajudou Elena 
e descer. Ela no se mostrou surpresa com a agilidade do pai.
  Vamos, Suzanne  chamou ele.  No  longe. Suzanne ficou relutante, mas nesse 
meio tempo Elena gritou para o pai perguntando se podia correr na frente.
  Est bem  respideu o pai.  Mas tome cuidado com as pedras molhadas, elas so 
escorregadias.
  Sim, papai.
E Elena sumiu entre as rvores na direo do som da cachoeira. Mazzaro foi at o porta-
malas e pegou uma sacola com toalhas. Suzanne observava com ansiedade.
  Voc pode fazer isso? Quero dizer... seu mdico aprova! Mazzaro empertigou-se e a 
encarou.
  Minha cara Suzanne,  justamente de exerccio que eu preciso.  por isso que estou em 
forma.
 Estou vendo.
 Sua preocupao  tocante  disse ele secamente.  Uma novidade para mim  
estendeu a mo e pegou a sacola dela.  Eu carrego isso. Vamos, Elena j deve estar nos 
esperando.
  Ela sabe, no ?
  Era nosso segredo. Agora  de ns trs.
  Sinto muito. Se eu no tivesse sado na sacada naquela noite ..
   ... Eu no teria agora o prazer de sua companhia  completou com voz suave.  Ou 
talvez tivesse  acrescentou ele, olhando para os lbios dela.  Acho que existem coisas 
das quais no preciso me privar.. .


CAPITULO V


A cachoeira no era muito forte. Era um pequeno curso d'gua lmpida e gelada, que brotava 
da montanha e escorria por ela sobre pedras. No lugar onde a gua caa formava-se um 
pequeno aude, como se fosse uma piscina natural. Elena estava a sentada, na margem, 
com os ps na gua, quando Suzanne e Mazzaro chegaram depois de passarem sob as 
rvores.
Suzanne no pde reprimir uma exclamao de prazer que lhe saiu naturalmente.
  Que lugar lindo!  olhou em redor, maravilhada.  Nunca vi um lugar como este!                                        
  Fico contente por voc gostar  Mazzaro parou ao lado dela, largando as sacolas no cho. 
 Como voc est vendo, pode-se nadar nesse aude.  fundo e a gua  gelada, mas no 
tem correnteza e no  perigoso.                                      
Suzanne olhou para sua sacola. Embora tivesse trazido o biquni, no tinha inteno de us-lo, 
mas agora, vendo esse lugar maravilhoso, ela sabia que no poderia resistir  tentao de 
mergulhar naquelas guas cristalinas.                                    Posso entrar na gua, papai?
A expresso de Mazzaro era indulgente.
  Seu maio est na sacola. Voc e Suzanne podem ir se trocar atrs das rvores.
  Est bem, papai.
Elena enfiou a mo na sacola e retirou um maio preto inteirio, que como todas as suas 
roupas no estava de acordo com sua idade. Era muito severo. E Suzanne desejou que o 
dela fosse igual. Perto desse maio, o biquni branco que trouxera parecia ainda mais 
escandaloso.
Ficou indecisa enquanto a menina a esperava. Mazzaro estendeu-lhe sua sacola.
  Voc trouxe maio, no trouxe, Suzanne?
Ela pegou a sacola e balanou a cabea, assentindo.
  E voc no vai nadar?  perguntou ele.
  Voc vai?
Mazzaro comeou a desabotoar a camisa.
  Ser que isto responde sua pergunta?
Suzanne virou-se rpido e deu com Elena, que a esperava impaciente.
  Vamos, senhorita... depressa, por favor.
Elas foram para trs das rvores e em poucos instantes Suzanne trocou-se. Elena, 
educadamente, ficara de costas para ela, mas depois de pr seu maio olhou para Suzanne 
com admirao.
  Tia Tommasa nunca me deixaria usar isso  suspirou.  A senhorita est linda!
Suzanne sorriu.
   sempre tia Tomassa quem escolhe todas as suas roupas, Elena?
  . Mame no tem tempo de me levar para fazer compras - explicou inocentemente, sem 
imaginar que com isso revelava o pouco interesse que Sophia demonstrava pela filha nica.
Quando voltaram para a margem, Mazzaro estava agachado sobre uma pedra. Usava um 
pequeno mai preto e ela no pde deixar de admirar as costas largas e musculosas. As 
cicatrizes iam at a omoplata. Suzanne sentiu uma vontade louca de tocar aquele corpo.
Ele se virou quando sentiu a proximidade delas, ergueu-se e mostrou a Elena a pequenina r 
que encontrara. Ela se aproximou para examin-la e por sobre sua cabea Mazzaro olhou 
para Suzanne.
Os olhos dele eram enigmticos e ela no conseguia decifrar o que diziam enquanto 
percorriam seu corpo bem feito. Nesse momento Elena falou, desviando a ateno dele.
Suzanne gostaria de ter ido olhar a rzinha tambm, mas sentiu-se demais, por isso afastou-
se e foi molhar os ps na gua. Os respingos da Cachoeira caiam sobre seus ombros fazendo 
com que ela se arrepiasse. Ergueu o rosto para receber o frescor da gua.
Logo depois chegou Elena.    
  A gua  gelada, senhorita  disse ela e, sem hesitar, mergulhou de cabea, emergindo 
alguns metros adiante com um rosto risonho.
Suzanne olhava-a atnita e nem se deu conta de que Mazzaro se aproximara dela at que ele 
falou com voz macia:
  Ela nada como um peixe, no ?
   sim. Parece que ela adora a gua.
 E adora mesmo  sorriu ele.  E voc? Ou ser que esse traje  mais para decorao do 
que para participao? 
Suzanne sentiu um impulso de cobrir o corpo com as mos.
  Eu no tinha outro mai  desculpou-se ela, percebendo que ele tinha cicatrizes na 
clavcula tambm. Com medo de que ele interpretasse mal seu olhar, ela desviou os olhos e 
acrescentou, rapidamente:  No pensei que fosse usar mai.
Ele suspirou e abaixou-se, molhando as mos na gua. Depois, ergueu-se e olhou-a nos 
olhos.
  Por que voc no me olha? Eu no me incomodo.
  No?
  No, se voc no se incomodar tambm.
Ento ela deixou seus olhos percorrerem o corpo todo dele, examinando as cicatrizes.
  Voc acha ruim falar sobre o acidente?  ousou perguntar.
  Agora no quero  respondeu e ergueu o queixo dela de leve.
  Ento depois?
  Se voc quiser, eu conto.
A voz quente com que ele disse isso deixou-a tonta. Ela olhou o rosto moreno dele. Aqueles 
olhos eram dois mares verdes nos quais queria se afogar. Sentiu uma onda de desejo que fez 
com que se aproximasse mais dele. Precisava sentir acuele corpo rijo contra o seu. O calor 
dele e o perfume de sua pele mexeram com todos os seus sentidos e ela erqueu a mo para 
toc-lo. Mas, ento, voltou a si com uma exclamao e afastou-se. Ser que estava ficando 
louca? S porque ele era gentil e a tratava bem ela j comeara a imaginar loucuras, 
deixando-se arrastar pelas emoes ridculas que lhe roubavam o bom senso?
  Se. . . se a gua est mesmo fria.. . como. . . Elena...  comeou a guaguejar, 
desconexamente, quando a mo dele pousou em sua nuca e a fez silenciar.
  Fique assim...  disse ele com voz quente e aproximou-se at que seus lbios tocaram os 
cabelos dela. Ele estava em p atrs dela e para os olhos inocentes de Elena no havia nada 
de mal nessa postura.
  Sinto muito  disse ela tolamente.
  Por qu?  perguntou ele, fazendo-a sentir sua respirao e espalhando os dedos numa 
carcia sobre os ombros dela.  Por acaso voc acha que eu no quero toc-la?
Seguindo seu instinto, ela deu um passo para trs e encostou-se no corpo dele, murmurando 
ofegante: "Isso  uma loucura!". Abandonou-se, arrepiada,  mo dele, que deslizava de seu 
ombro para o ventre, acariciando as ancas e apertando de leve as coxas.
De repente ele afastou-a, delicadamente mas com firmeza, e sem dizer uma palavra 
mergulhou nas guas cristalinas. Nadou submerso um bom pedao e emergiu perto de Elena, 
embaixo da cachoeira. Os dois comearam a brincar e riram alto.
Observando-os, Suzanne sentiu a fria realidade envolvendo-a. Meu Deus! O que fizera! O que 
ele deveria estar pensando dela? Como fora se atirar nos braos dele daquele modo deixando 
que ele a tocasse com tanta intimidade? Provavelmente ele deveria estar pensando que ela 
era uma mulher fcil, que se entregava a qualquer homem! Mas isso no era verdade! Ele era 
o primeiro homem que a fazia perder o controle sobre suas emoes. Ele a deixava fora de si.
Afinal, Mazzaro saiu de perto de Elena e nadou para a margem.
  Voc no vai cair n'gua? - perguntou ele, e ela percebeu um tom de intimidade na voz 
dele que no havia antes.
  No sei. No quero ser intrusa.
  Intrusa? Meu Deus!  exclamou ele saindo da gua , voc nunca  demais, Suzanne.
  Seria melhor voltarmos
  Mas o que  isso? O que houve? Voc est brava comigo por causa do que aconteceu 
agora h pouco?
  Estou brava comigo mesma.
  Porqu?                                                               
 Como, por qu?  ela arregalou os olhos, encarando-o.  Eu no sou. .. no sou uma 
garota dessas, senhor conde. Eu no. .. eu nunca...  ela interrompeu sem jeito.  Ah! Voc 
sabe o que quero dizer.
 O que sei  que est bancando a tola  retrucou ele meio rspido.
  Oh! Por favor...  ela se afastou  pare com isso!
  Ento pare tambm de fazer tempestade num copo d'gua. O que foi que fizemos de to 
errado? Voc  uma mulher bonita, Suzanne. No  preciso que eu lhe diga isso. Mas se 
ofendi voc por toc-la, peo desculpas. No sei o que est pensando, mas no pretendi 
insult-la com isso. Nem vou considerar voc de maneira diferente por causa disso.
  Mas, se Elena no estivessse aqui.. .
  . . . mas ela est aqui. Foi o que me fez recobrar a razo.
  Mas eu no recobrei. Perdi a cabea  exclamou ela com raiva.
  E isso nunca lhe aconteceu antes?
  No!
  Nem mesmo com Pietro?
  Pietro? No! Eu j disse, nosso relacionamento no  desse tipo! Ns somos amigos.
  Voc me surpreende...
  Por qu?  Ela o encarou, furiosa.  Voc deve ter um conceito bem baixo sobre a moral 
das garotas inglesas!
  No restrinjo meu conceito s garotas inglesas. . .
  Ora, muito obrigada! Mas existem outras coisas na vida, sabia?
Ele examinou o rosto sombrio e srio dela.
  Voc quer dizer que nunca... dormiu com um homem?
 !!  sim!  respondeu com o sangue fervendo.  S porque voc acha fcil seduzir uma 
mulher, no precisa pensar que todos os outros homens conseguem com a mesma facilidade!
  Baseada em que voc me diz isso?  perguntou ele com voz calma.  Parece que voc 
tambm est fazendo um conceito errado de mim, Suzanne.
Ela suspirou.
  Ento talvez seja melhor encerrarmos essa conversa ridcula.
  Ser que  ridcula? Por qu? Porque voc sabe que poucas mulheres gostariam de ser 
cortejadas por mim?
  Est dizendo besteira e voc sabe disso. Voc  um homem muito atraente!  afirmou 
com sinceridade.
  Voc acha?
Ela fez um gesto, indefesa.
  No adianta esconder... voc sabe que eu acho.
  Obrigado  sorriu ele.  Agora acho melhor irmos brincar um pouco com Elena, no?
Suzanne deu graas a Deus por quebrar aquela tenso e poder entrar na gua. Era 
maravilhoso sentir dissolver-se naquele lquido frio toda sua raiva e frustrao, nadar embaixo 
da cachoeira e sentir sua fora arrastar todas as dvidas e ansiedades. Sentiu-se contente e 
resolveu no pensar mais no que viria depois.
Mazzaro pegou uma bola de dentro do carro e ficou durante algum tempo jogando-a contra o 
cho ou contra as duas mulheres. Uma brincadeira divertida. Espirravam gua um no outro e 
riam muito. s vezes Mazzaro e Suzanne nadavam ao mesmo tempo para alcanar a bola e, 
durante a disputa para peg-la, as pernas deles se encontravam embaixo d'gua. Uma vez 
at, na euforia da brincadeira, ela agarrou o ombro dele e sentiu a cicatriz sob sua mo.
Depois de algum tempo estavam exaustos e foram para a margem descansar. Mazzaro 
deitou-se e Elena correu para o lado dele. Suzanne sentou-se com os braos rodeando o 
joelho e apoiando o queixo sobre eles. O sol batia em cheio em suas costas mas ela nem 
percebia, de to preocupada que estava em no se envolver de novo com Mazzaro.
De repente, Elena levantou-se e foi colher flores silvestres. Suzanne sobressaltou-se quando 
Mazzaro ergueu-se tambm, mas ele foi at a sacola e pegou uma toalha. Voltou enxugando 
o peito e os ombros e parou ao lado dela.
  Voc vai se queimar demais se no tomar cuidado. Ela deu de ombros.
  Acho que no.                                             Mas eu acho que sim  ele abaixou-se ao 
lado dela  Quer que eu enxugue suas costas?
  No!  alarmou-se ela  Eu enxugo.
  Vou buscar uma toalha, ento...
  Eu pego  ela se ergueu rpido.  Est na sacola, no ?
Ele balanou a cabeya afirmativamente e fez um muxoxo de resignao, continuando a se 
enxugar com ar pensativo.
Suzanne pegou uma toalha vermelha e enrolou-se nela, enxugando os cabelos com uma das 
pontas. Mazzaro agora estava deitado de braos, com a cabea apoiada nos braos cruzados, 
observando-a.
  Como  que voc conheceu Pietro?  perguntou de repente, e Suzanne ergueu a cabea 
para olh-lo.
  Por que voc quer saber?
  Pietro j teve outras garotas, mas no eram como voc.
  Voc quer dizer... que ele j trouxe outras garotas para Villa Falcone?
  Afinal de contas,  a casa dele... 
Suzanne deu de ombros.
  No tinha pensado nisso. Eu acho que a me dele... quer dizer. ..  ela interrompeu 
bruscamente e ele sorriu.
  Tia Tommasa  bem intimidadora, concordo com voc.
  Eu no ia dizer isso.
  O que ia dizer, ento?
  Agora no sei...
Ela se virou de repente e pisou na toalha, que se soltou e caiu no cho. Seu primeiro impulso 
foi peg-la, mas daria muito na vista, por isso ajoelhou-se ao lado de sua sacola e pegou o 
creme bronzeador. Comeou a aplic-lo nos braos, massageando delicadamente e tentou 
ignorar que ele a observava.
  Ento... como conheceu Pietro? 
Suzanne suspirou.
  Foi num antiqurio. Ele estava perguntando algo e o vendedor no conseguia entend-lo. 
Como eu falo italiano, naturalmente ofereci-me para ajudar.
  Ah... sei  fez uma cara pensativa , isso explica... Mas no estou entendendo como 
voc, com toda essa inibio, foi se envolver a esse ponto com um estrangeiro!
Ela levou alguns instantes para perceber que ele estava caoando novamente. Ento sorriu, 
relutante. E ficaram algum tempo sorrindo um para o outro, at que comeou a se estabelecer 
de novo aquela corrente entre eles e ela desviou os olhos.
Ela quase perdeu o flego quando o brao dele encostou no dela para lhe tirar das mos o 
bronzeador... Ajoelhado ao lado dela, ele tirou uma poro do creme e espalhou suavemente 
nas costas dela e na nuca. Eles no disseram uma palavra, mas as mos dele estavam 
acariciando-a.       
Nesse instante Elena voltou, saltitante., carregando uma poro de flores do campo. Mazzaro 
suspirou e rolou na grama, deitando-se de bruos, longe de Suzanne.
  O que aconteceu com papai?
  No foi nada, ele est brincando.  Guardou o bronzeador e acrescentou:  Quantas 
flores voc encontrou!  Elena ficou toda satisfeita e comeou a mostr-las.  Que tal lev-
las para casa? Esto lindas!
Elena ficou indecisa.
  Tia Tommasa no quer que eu leve flores silvestres para a Villa  respondeu, balanando 
a cabea.
Suzanne suspirou, impaciente, e num impulso inclinou-se e bateu de leve na perna de 
Mazzaro, que se encolheu como se ela o tivesse queimado. Seus olhos se encontraram. Ela 
comeou a falar apressada, disfarando a emoo.
  Mazzaro, Elena no pode levar as flores para casa? Ela disse. . . que sua tia no gosta.
A expresso dele era enigmtica.
  E voc acha que ela vai mandar devolv-las, Suzanne?
  Est bem  disse ele para Elena  se tia Tommasa achar ruim, ponha a culpa em mim.
  Ah! Obrigada, papai!  Elena largou as flores e abraou o pai, que olhava para Suzanne 
de modo perturbador.
Meia hora depois, resolveram voltar. Suzanne sentou-se ao lado de Mazzaro, no carro, 
consciente da mudana crtica no relacionamento deles. E ficou imaginando se para ele seria 
to importante quanto era para ela. Ele, entretanto, estava mais srio do que na ida e parecia 
estar concentrado unicamente em dirigir.
Pararam para tomar caf na cidadezinha que eles haviam atravessado. A praa estava cheia 
de gente, vrias pessoas reconheceram e cumprimentaram Mazzaro. Algumas paravam na 
mesa deles para trocar algumas palavras e olhavam curiosas para Suzanne, querendo saber 
quem era. Mazzaro no a apresentou.
J era quase uma hora quando chegaram  Villa. Luigi estava no porto esperando para abrir. 
Foram com o carro at a garagem e Elena deu um suspiro de tristeza quando o pai pegou de 
novo as muletas.                                   
  Papai...  comeou, mas a expresso dele fez com que se calasse e ela saiu do carro 
sem dizer nada.
Suzanne pendurou a saiola no ombro e desceu, enquanto Mazzaro assumia sua postura 
habitual.
  Bem... muito obrigada  disse ela quando comearam a caminhar em direo  casa.  
Eu... eu gostei muito!
  Gostou?  ele a olhou de soslaio.  Isso me alegra.
O tom em que falou foi mais formal e frio do que nunca e ela ficou ansiosa.
  H algo errado? Voc est sentindo alguma dor?
  Depende do tipo de dor a que voc se refere...  fez uma pausa.  No, Suzanne, no 
estou sentindo dor. E desculpe-me se eu aborreci voc de algum modo.
  Voc no me aborreceu.
  Duvido que Pietro concorde com voc  comentou, e ficou em silncio at entrarem em 
casa.
Pietro estava no saguo, esperando, e era evidente que estava de mau humor.
  Muito bonito, no ? Onde  que voc se meteu?  perguntou em tom rspido e raivoso. 
Olhou para Mazzaro, logo atrs de Suzanne:  Ah! Eu deveria ter imaginado que voc estava 
por trs disso!
  Por favor, Pietro...  Suzanne olhou significativamente na direo de Elena, que estava 
na frente dela, olhando assustada para ele  no precisa gritar. Eu... ns... ns trs fomos 
at a cachoeira...
  Foram, ! Muito divertido para voc! Mas  claro que no lhe passou pela cabea me dizer 
onde ia!
  J chega, Pietro  comeou Mazzaro.  Suzanne no lhe deve explicaes de seus 
passeios. Estava estabelecido que voc ia levar sua me a Muvano...
  E levei mesmo, mas... no demorei nem uma hora. Ou voc imaginava que ia ficar em 
Muvano fofocando feito uma velha?
  Foi exatamente o que imaginei  retrucou em tom de provocao. Pietro deu um passo 
ameaador em direo a ele, embora Suzanne no pudesse imaginar o que ele faria.
  Por favor...  interferiu ela, com medo da expresso feroz de Mazzaro  Pietro, 
desculpe-me se o fiz ficar preocupado procurando por mim, mas, sinceramente, pensei que 
voc fosse passear a manh inteira.  Ela suspirou:  Lcia no lhe disse onde eu estava?
  Lcia!  Pietro praticamente cuspiu a palavra.  Ento voc no sabe que os 
empregados aqui s respondem ao amo e senhor? Ele os treinou bem para que no revelem 
suas escapadas. Gostaria de saber por qu.  
Elena, que seguia a discusso com ar preocupado, olhando de um para outro, desfez-se em 
lgrimas.
 Voc est sendo malvado, Pietro!  soluou ela, deixando cair as flores que trouxera.  
Ns passamos uma manh maravilhosa e agora voc estragou tudo! S porque papai gosta 
de Suzanne, voc est com cime! Seu ciumento! Papai no fica bravo quando voc sai com 
mame. E bem que ele podia, no ? Porque eu j vi voc beijando ela. Eu vi! Eu vi! Mame 
me disse para no contar porque ia criar problemas. Por isso eu no falei. Seria bem feito 
para voc se papai tivesse beijado Suzanne. Pena que ele no beijou. Eu queria que ele 
beijasse!...


CAPITULO VI


Mazzaro no apareceu para almoar e, como a sra. Vitale ainda no voltara de Muvano, s 
estavam  mesa Suzanne, Pietro e Elena. Ningum disse onde estava Sophia, mas Suzanne 
j deduzira que a condessa deveria levar uma vida completamente desligada da famlia.
Havia uma certa tenso no ar. Depois do episdio no saguo, Elena correra para o quarto 
dela e Suzanne fizera o mesmo, com a desculpa de ir se trocar. Na verdade, o que ela queria 
era ficar sozinha para reorganizar os pensamentos.
Agora, enquanto almoava, sem o menor apetite, pensava que no havia conseguido 
reorganizar nada. Seus sentimentos por Mazzaro estavam to confusos quanto antes e a 
impresso sobre a situao das pessoas da Villa piorava cada vez mais. Era bvio que o 
relacionamento entre todos eles no era simples como poderia parecer. Ser que havia 
mesmo um envolvimento de Sophia com Pietro e seria esse o motivo do aparente fracasso de 
seu casamento? O problema  que estava emocionalmente inclinada a culpar Sophia por tudo, 
quando na verdade Mazzaro tambm poderia ter culpa. Aquele momento na cachoeira, por 
exemplo. . . Ser que ele j se portara assim outras vezes? Ser que era um conquistador 
barato? Mas no fundo ela no podia acreditar nisso. De alguma forma ela sentia que ele era 
um homem de carter.
Elena, por sua vez, estava mais retrada do que nunca. Pietro estava calado e carrancudo e 
Suzanne no sabia o que fazer. Chegou a desejar que a sra. Vitale estivesse presente. Pelo 
menos ela no tomara parte na discusso e poderia quebrar o constrangimento geral.
Quando Lcia trouxe o caf, Elena pediu licena e saiu. Suzanne estava com medo que Pietro 
dissesse algo desagradvel para a menina. Quando a porta se fechou, ficaram sozinhos 
Pietro e Suzanne, o que acabou parecendo pior.
Sentindo-se na obrigao de pelo menos tentar restabelecer a normalidade entre eles, 
Suzanne serviu o caf e estendeu a xcara para ele.
 Obrigado.
Ele estava sendo educado e ela sentiu-se aliviada e encorajada a discutir a situao.
 Acho melhor eu ir embora para casa  disse ela em voz baixa. Pietro ergueu a cabea 
num sobressalto.
 O que voc disse?    
 Voc ouviu, Pietro. Ser que voc me faria o favor de telefonar para o aeroporto e 
perguntar se h algum avio para Londres, hoje, e reservar a passagem?
 No! Suzanne, voc no pode ir embora!
 Ao contrrio, eu devo. Acho que minha presena aqui est causando problemas...
 Como assim?  ele a encarou de olhos arregalados.  Se voc est preocupada com a 
discusso que tive com Mazzaro, esquea! Ns nunca nos gostamos. . . e quanto quilo que 
Elena disse sobre Sophia... bem... no vou negar que eu.. . que ela... bem, que somos muito 
ntimos. Elena nos surpreendeu num beijo,  verdade, mas...
 Oua, Pietro!  exclamou ela desesperada -, voc no precisa se justificar comigo! Eu 
no tenho nada com isso.  coisa de vocs!
 No  verdade, Suzanne. No quero que voc tenha uma impresso errada de mim...
  Meu conceito sobre voc no mudou em nada, Pietro.  Seria verdade mesmo? Mas 
agora j dissera.  E eu lhe avisei bem antes de aceitar seu convite... ns somos apenas 
amigos. Amigos! Pare de se comportar como se houvesse algo mais entre ns.
  Mas para mim h algo mais!  protestou fazendo um gesto dramtico.  Suzanne, 
quanto mais tempo convivo com voc, mais tenho certeza de que fiz bem em traz-la para c. 
E mame est comeando a gostar de voc. Por favor, no v nos desapontar, fugindo assim 
do primeiro probleminha que aparece!
  Primeiro probleminha?! Hum... Eu j lhe disse o que sinto por voc. Sinto muito se voc 
pensa que est gostando de mim, mas justamente esse  mais um motivo para eu ir embora 
daqui!
 Suzanne! Suzanne! Est bem, eu admito que fui rude hoje de manh, mas tente entender o 
meu ponto de vista. . .
 Eu entendo seu ponto de vista, Pietro.
  . . . e fiquei furioso quando percebi que voc havia sado com Mazzaro. Eu sei o tipo de 
homem que ele . Sabia que ele ia encher sua cabea contra mim.
 Isso no  verdade, Pietro. Mazzaro no falou nada que pudesse diminuir voc, pode estar 
certo.
  lgico! Eu devia imaginar que ele  esperto demais para fazer uma coisa dessas. Ele tem 
outros meios mais sutis para me diminuir, como, por exemplo, chegar com voc na minha 
frente.
 Ora, Pietro!  suspirou ela , voc est ficando louco! Como j disse, gostaria de ir 
embora. . .
  Eu no vou deixar. Voc veio para passar os feriados. Como acha que vou me sentir se 
voc for embora antes? Mame vai querer saber o que aconteceu e vai acabar desconfiando. .
Ele interrompeu bruscamente, mas ela sabia a que ele se referia. Se a sra. Vitale suspeitava 
do relacionamento de Pietro e Sophia, a partida repentina de Suzanne poderia ser uma 
confirmao. Ela poderia achar que Suzanne estava com cimes. E Pietro no teria como 
explicar.
 Se eu decidir partir, Pietro, voc no pode me impedir.
  Voc tambm desconfia, no ? Acredita no que Elena disse sobre mim e Sophia.
 E voc pensa que isso me preocupa?  Suzanne afastou a cadeira, impaciente, e 
levantoe-se.  Parece que minha presena, aqui, est desencadeando uma srie de reaes 
que no tm nada a ver comigo. Isso  para ser resolvido entre vocs. . .  assunto de famlia.                                 
  , realmente. Est bem. .. ento eu no posso obrig-la a ficar? Voc no acha que me 
deve algo por t-la convidado a vir para c? O mnimo que voc pode fazer, na minha opinio, 
 ficar o tempo combinado.
Suzanne, que estava em p com as mos apoiadas na mesa, encarou-o, resignada. De tudo 
que ele dissera, de todos os argumentos para persuadi-la, esse parecia o nico certo. Ela no 
tinha como derrubar esse argumento.
 Ah! Pietro!
 Concorda comigo?  perguntou ele, percebendo que ela enfraquecera.
 No concordo  suspirou.  Mas sei que em sua opinio voc est com a razo. Est 
bem, Pietro. Vou ficar at tera-feira, conforme o combinado.
 Voc no vai se arrepender  sorriu ele.  E prometo no fazer nada que possa 
aborrec-la.
 Aborrecer-me?  repetiu com ironia.
Suzanne foi com ele mais tarde a Muvano para buscar a sra. Vitale e gostou do passeio. 
Longe da Villa, Pietro ficava bem diferente. Muito melhor. Voltava a ser o rapaz simptico com 
quem travara amizade.
 noite, havia um convidado para o jantar. Um jovem atraente e evidentemente rico, a julgar 
pelas roupas e pela pulseira de ouro macio e o anel. Ele entrou no salo ao lado de Sophia e 
pelo modo como ela estava segurando no brao dele pareciam ser mais do que amigos. Os 
olhos de Suzanne foram direto a Mazzaro, que estava em p diante da lareira. Mas o rosto 
dele era inexpressivo e cumprimentou o jovem com fria indiferena. Mazzaro, em seu terno 
preto e elegante, era uma presena bem mais marcante do que o convidado. Carlo Bottega.
Suzanne tambm se vestira com mais cuidado e usava um elegante vestido de seda preta 
que delineava bem seu corpo e contrastava com o cabelo claro. Carlo mostrou abertamente 
sua admirao e Sophia chegou a ficar nervosa. Pietro tambm no tirava os olhos dela e 
tambm parecia no se importar de ver Sophia com outro homem.
S Mazzaro evitava falar com ela e era impossvel ler em seu rosto enigmtico se ele a estava 
achando atraente. Suzanne pensou que talvez ele estivesse arrependido pelo que acontecera 
naquela manh e que ficara com raiva dela. A frieza dos olhos verdes a congelava, por isso 
resolveu acolher a calorosa ateno que Carlo lhe dispensava.
Suzanne nem se lembrava do que foi servido no jantar. S sabia que a me de Pietro distrara 
Sophia o tempo todo e Carlo ficara conversando com ela. Pietro e Sophia no estavam 
gostando nada da histria. Suzanne imaginou que a sra. Vitale fizera de propsito porque no 
gostava de ver Sophia com o jovem. Estaria ela tentando preservar o casamento de Mazzaro? 
E esse pensamento encheu-a de ansiedade.
Quando o jantar acabou, Sophia tentou levar Carlo para o jardim, mas ele continuou a 
conversar com Suzanne enquanto tomavam caf.
 Eu vou muito a Londres  estava dizendo a ela.  Eu tenho negcios l. Minha empresa 
 especializada em mrmore italiano. Estamos com sorte. O produto est bem colocado no 
mercado. Voc no imagina quantas pessoas querem fazer terraos, ptios e pisinas de 
mrmore, apesar de toda a inflao!
Suzanne fingia interesse.
  , no imagino mesmo.
  Naturalmente, no trabalho durante todo o tempo que fico em Londres  continuou Carlo, 
aumentando a raiva de Sophia.  Gosto muito de teatro e sempre aproveito para ver alguma 
coisa quando estou l.  Fez uma pausa e sorriu:  Voc trabalha em Londres, Suzanne?
Suzanne ia responder quando o som das muletas de Mazzaro paralisou sua fala. Sophia ficou 
contentssima com a interrupo mas Mazzaro estava srio e, pela expresso de seu rosto, 
poder-se-ia dizer que ele no estava gostando de ver os dois conversando isoladamente.
  Minha tia gostaria de lhe mostrar umas tapearias e ornamentos, Suzanne  disse ele 
sem sorrir.  Sophia, voc no ia ao jardim mostrar ao nosso convidado minha ltima criao?
  Eu ia, Mazzaro, mas Suzanne ficou to interessada pelo trabalho de Carlo...  disse com 
sarcasmo.
Suzanne recusou-se a responder uma insinuao to maldosa! Com um sorriso de desculpa, 
olhou para Carlo e afastou-se para procurar a sra. Vitale, que eslava com um lindo trabalho de 
tapearia nas mos. Pietro estava ao lado da me e, quando Suzanne chego perto, ele 
enlaou-a pela cintura, com ar de dono, mostrando-lhe o trabalho.
  Era muito comum nos sculos XV e XVI usarem tapearias como esta dependuradas nas 
paredes  comentou a sra. Vitale, apontando um lugar no meio da figura.  Mas aqui, est 
vendo? J est desgastado e logo vai acabar furando. Voc pode imaginar que desgraa 
seria?
  Mame restaura as tapearias antigas  disse Pietro com orgulho.  Veja, este pedao 
ela j reconstruiu. Nem se percebe!
  A senhora  uma artista. Esse  um trabalho de grande habilidade!  murmurou Suzanne, 
educadamente, percebendo a presena do sobrinho dela que se aproximara.  Acho que 
nunca conseguiria trabalhar com uma linha to fina.
  Ningum sabe do que  capaz antes de tentar  comentou Mazzaro s suas costas.  
Mas ela tem razo, tia Tommasa, a senhora  uma artista e eu lhe agradeo por isso!
  Por preservar sua coleo, Mazzaro?  acrescentou Pietro com malcia. Mas o primo no 
se deixou provocar.
  Onde  que Sophia foi com aquele jovem libertino?  perguntou a sra. Vitale ignorando os 
presentes, enquanto Mazzaro ficava de frente para Suzanne. Os dois se olharam.
  Foram at a estufa, tia Tommasa  respondeu calmamente - , para ver as rosas.
  As rosas!  repetiu ela, torcendo a boca.
  , tia Tommasa, as rosas.  Olhou bem para Suzanne:  Voc precisa conhecer minhas 
rosas antes de ir embora!
Antes que Suzanne pudesse responder, Pietro retirou a mo da cintura dela e riu com 
sarcasmo.
  Mais uma coleo, Mazzaro? 
A sra. Vitale interferiu.
  Como  mesmo o nome da nova rosa, Mazzaro?
  A Branca Medici  respondeu ele, e Suzanne lembrou-se da rosa delicada que ela 
encontrara na bandeja do caf. Ele a olhou como se estivesse lendo seu pensamento e 
continuou:  Precisa v-la, Suzanne. Ela  branca como a pele de Catarina de Medici, mas 
manchada de sangue como eram todos os Medici naquela poca.
Suzanne evitou o olhar dele.
  Para mim as rosas so todas iguais  respondeu ela, sabendo que ele no acreditava no 
que ela dizia. Pietro ficou satisfeito.
A sra. Vitale parecia inquieta. Sem dvida estava preocupada com a demora de Sophia.
  E voc acha que Sophia est mesmo interessada nas rosas?  murmurou ela.  
Mazzaro, voc  um bobo!
Suzanne percebeu que ela se arrependeu do que dissera, imediatamente, mas Mazzaro 
apenas deu de ombros e disse:
  Melhor ser bobo do que ladro, tia Tommasa  e afastou-se. J era tarde quando Sophia 
e o jovem voltaram ao salo. Suzanne estava sentada ao lado da sra. Vitale ouvindo-a contar 
histrias sobre antes da guerra, quando ela era menina e morava na Villa. Quando se referiu 
ao casamento dela, no falou com pormenores e  Suzanne teve a impresso de que o 
casamento deveria ter sido reprovado pela famlia. O marido dela, Bernardo Vitale, no era 
um homem rico e talvez os Falcone estivessem esperando um genro rico. Embora a sra. 
Vitale no tivesse dito expressamente, pareceu a Suzanne que ela no era bem recebida na 
"Villa" antes da morte do pai de Mazzaro.
Mazzaro havia sado do salo e no voltara e Suzanne achava prefervel ficar ouvindo as 
reminiscncias a aceitar o convite insistente de Pietro para passear no jardim. Ela concordara 
em ficar na Villa,  certo, mas s isso. No queria saber de envolvimentos embaraosos
com ningum.
Sophia pareceu decepcionada por Mazzaro no estar l para presenciar sua volta. Era bvio 
que Carlo a beijara, pois o batom desaparecera dos lbios e ela se movia languidamente, 
como se tivesse conscincia do poder que tinha sobre o jovem.
Suzanne ficou mais um pouco, apenas para no parecer indelicada, e depois desculpou-se e 
retirou-se. Tanto Carlo como Pietro protestaram mas o que Suzanne mais queria era a solido 
de seu quarto.
Atravessou o saguo e quando ia subir a escada sentiu que no estava sozinha. Olhou por 
cima do ombro, apreensiva.
Mazzaro estava parado  entrada, no escuro, observando-a. Ela parou, indecisa, no primeiro 
degrau..
Ento ele se adiantou e disse:
  J vai dormir to cedo assim, Suzanne?
  J so mais de onze horas  respondeu, umedecendo os lbios.
   mesmo?  O tom de voz era seco.  Mas sem dvida ainda  cedo para uma garota 
como voc!
Suzanne desceu do degrau e virou-se para ele.                                                           Voc 
acha?
Mazzaro deu mais um passo adiante.
  As jovens de hoje em dia. .. gostam de aproveitar ao mximo todos os momentos.
  Ao mximo?  repetiu ela.
   claro!  deu mais um passo. Por que ele estaria fazendo isso?  Elas sentem 
necessidade de experimentar todos os aspectos do comportamento humano, no ?
Havia um segundo sentido no que ele dizia, sem dvida. Suzanne sentiu-se perdida.
  Acho que no estou entendendo. . .  comeou, mas ele a interrompeu, chegando bem 
perto dela.
  Aquele homem. . . Carlo. O lindo garotinho de minha mulher. Voc o achou atraente, no 
foi?
Suzanne respirou fundo, sentindo um tremor nas pernas.
  Eu. .. . . . ele  atraente, sim  gaguejou ela.  Sinto muito que.....
  Por favor, poupe-me de ouvir banalidades. Eu no sou o idiota que minha tia imagina.
  Mas ningum acha voc idiota!
  No mesmo? Olhe, eu ouvi Carlo marcando um encontro com voc. E lhe aconselho a no 
aceitar.
Suzanne engoliu em seco.
  0 que est dizendo!?
  No tente negar. Eu ouo muito bem. Peo desculpas por estar embaraando voc mas 
no gostaria que interferisse em meus planos.
Mas o que ele queria dizer com isso? E ela, que se afogueara s de pensar que ele estava 
com cime de Carlo! Sentia-se tola e humilhada. Com esforo ergueu a cabea e disse com 
frieza:
- Sem dvida seus ouvidos so bem melhores do que os meus! Lamento no ter ouvido o 
convite de Carlo. Talvez fosse melhor eu voltar para o salo e pedir para ele repetir.
  Voc pode negar que ele a convidou para ir ao teatro com ele? 
Suzanne arrepiou-se com o olhar dele, mas respondeu brava e com frieza.
  Eu no admito nem nego coisa alguma! No acho que voc tenha o menor direito de me 
perguntar essas coisas!
  Enquanto estiver sob meu teto, sinto-me responsvel pelo seu bem-estar...
  Ser que isso inclui meu bem-estar moral?
  Para uma jovem que hoje de manh mesmo estava professando sua inocncia, voc est 
defendendo com veemncia demais sua... independncia.
Suzanne ficou encarando-o, muda, incapaz de pensar numa resposta adequada, depois virou-
se e comeou a subir a escada quando a voz dele fez com que parasse.
  Voc disse que gostaria de ver minha coleo, no foi? Se quiser tomar caf comigo 
amanh cedo, eu a levarei para conhecer a Villa toda.
  Obrigada, mas eu vou  missa com Pietro e a me dele.  Fez uma pausa.  Voc no 
vai?
  Sinto muito, mas rompi relaes com a Igreja h muito tempo.
Suzanne olhou instintivamente.
  Acho que no o entendi...
  No foi um escritor ingls, Jonathan Swift, quem disse: "A religio nos ensina a odiar e no 
a amar o prximo"?
  Por acaso.. o seu acidente...         
  Serviu para me abrir os olhos?
  No era isso o que eu ia dizer.
  Desculpe. Por favor, continue, ento.
O tom sarcstico quase fez com que se aproximasse dele de novo. Mas ficou onde estava, 
segurando firme o corrimo.
  No acho que ser amargo resolve alguma coisa.
  Ser amargo?  riu ele.  No fiquei amargo por causa do acidente, minha cara Suzanne. 
Desiludido, talvez arrependido. Mas amargo, no. Eu at encaro meu acidente com certa 
gratido.  O olhar dele a desafiava.  Isso a surpreende? Mas no deveria. Agora eu vejo 
as coisas que no via antes. Antes eu era cego.
Suzanne sentiu-se cansada. As palavras dele no tinham sentido. E ela no queria procurar o 
sentido.
  Se me d licena  murmurou ela , eu .. estou com dor de cabea.
  Mil desculpas, senhorita  fez um gesto de cortesia.  No vou ret-la mais.. Boa noite.
Suzanne ficou indecisa, parada, enquanto ele se afastava. Desejava no ter dito o que dissera. 
Queria correr atrs dele e consol-lo, mostrar a ele que nem todas as mulheres eram iguais, 
mas como poderia? Era evidente que de alguma forma ele estava por cima, na situao toda. 
No precisava de apoio. Contudo, era isso que ela sentia por ele. Uma vontade de apoi-lo e 
uma atrao imensa. Considerando tudo, deu graas a Deus por ter de ficar s mais dois dias 
sob o mesmo teto com ele.


CAPTULO VII


No dia seguinte, Suzanne no viu Mazzaro.
De manh ela foi  missa com Pietro, a me dele e Elena, mas no conseguia parar de 
pensar em Mazzaro e no que ele estaria fazendo. Contudo, relutava em admitir que estava 
arrependida por no ter aceito o convite dele.
Durante a tarde Suzanne tomou sol na sacada, enquanto a sra. Vitale e Elena faziam a sesta, 
recusando o convite que Pietro lhe fizera para percorrer de carro uns sessenta quilmetros at 
a praia. De certa forma, o relacionamento deles mudara desde a vspera.
Ao entardecer, encontrou Elena no ptio e dessa vez a menina no fugiu dela.
 Onde esto as flores que voc colheu ontem? Voc j descobriu o nome de todas?
 No, senhorita.  Elena olhou em redor, desconfiada, e depois respondeu baixinho:  Tia 
Tommasa no sabe das flores. Eu escondi no armrio do meu quarto. Estou com medo que 
ela fique bravai se encontr-las.                                  
 Ela ficaria brava se as encontrar em seu armrio, Elena. Seu pai lhe deu permisso para 
ficar com elas. Tia Tommasa vai respeitar.
  A senhorita acha? Papai pode ter mudado de idia...
  E por que mudaria?
  No sei. S sei que hoje ele no falou comigo. 
Suzanne sentiu um aperto no corao. Era impossvel conversar sobre qualquer coisa sem 
que esbarrasse em suas emoes.
  Bem... se voc quiser, posso ajud-la.
  A senhorita?
  . Eu mesmo. Seu pai no tem algum livro sobre flores?...
uma enciclopdia?
  Papai tem muitas enciclopdias. J vi no escritrio dele. Quer
que eu v buscar?
  No... no.  Suzanne segurou o brao dela.  No v atrapalhar seu pai.
  Mas ele no est no escritrio, senhorita.
  No est?
  No. Ele est trabalhando no salo grande.
  Salo grande?
  . A senhorita no conhece o salo grande?
  No.                                         
  Ento deve pedir ao papai para lhe mostrar. Ele lhe mostra se a senhorita pedir. Papai 
gosta da senhorita, e eu fico contente que a senhorita goste dele tambm.
Suzanne disfarou seu embarao com dificuldade.
  Ah... mas e a enciclopdia, Elena..
Mas a menina continuou.
  Papai no costumava ficar tanto tempo sozinho, assim. Ele no era to... to rabujento. 
Antes do acidente ele brincava muito comigo.
  E agora no brincam mais?
  s vezes... Mas em geral papai est muito ocupado...
  Bem...  Suzanne percebeu lgrimas nos olhos dela e seu instinto matemal despertou  
vamos estudar as flores agora, est bem? Voc me diz onde est a enciclopdia e eu vou 
busc-la, enquanto voc vai buscar as flores, combinado? Ns temos uma hora
  Est bem  disse ela, animada.  Mas e se tia Tommasa..
  Deixe que eu cuido de tia Tommasa  respondeu com ousadi  Ah! E tem outra coisa. 
Meu nome  Suzanne. Acho que pode parar de me chamar de senhorita, voc no acha?
 Est bem... Suzanne.
O modo como ela falou seu nome fez com que ela lembrasse o pai. Suzanne entrou em casa 
com a menina, sentindo o corao bater apressado.
Ficou nervosa ao entrar no escritrio de Mazzaro, mas a porta estava aberta e no podiam 
dizer que ela estava invadindo. As prateleiras estavam cheias de livros, a maioria em italiano, 
mas acabou achando "A Enciclopdia do Jardineiro". Havia figuras e seria fcil identificar as 
flores que Elena trouxera.
Ao sair do escritrio, no resistiu  tentao de parar perto da mesa dele. Passou a mo 
sobre a superfcie como se fosse uma carcia. Depois saiu apressada, com medo de que a 
vissem ali.
Passaram quase uma hora estudando as flores no ptio e, enquanto isso, conversavam. 
Elena queria saber como Suzanne vivia e como era o trabalho dela. Ela parecia ter sede de 
informaes sobre o mundo fora daquelas paredes e das paredes do internato. Suzanne 
acabou falando at do divrcio dos pais e da morte do pai.
  E voc no achou ruim sua me casar de novo?
  No. Por qu? Meus pais no eram felizes juntos. E acho que eles tinham o direito de 
tentar a felicidade com outra pessoa.
  Mas... mas tia Tommasa diz que no existe separao. Que quando as pessoas se casam, 
 para sempre.
  Bem... a vida no  to simples assim. Quer dizer... Veja bem, o que voc acha melhor? 
Que duas pessoas vivam lado a lado para sempre, mas brigando e se odiando, ou que se 
separem e comecem vida nova?  Suzanne suspirou.  No  bom para os filhos tambm... 
no  nada bom ficar ouvindo discusses todos os dias, sentindo que as coisas esto cada 
vez piores
 Mas tia Tommasa diz que quando as pessoas esto infelizes devem rezar e pedir ajuda a 
Deus... Voc acha que Deus quer que as pessoas sejam infelizes?
   claro que no  Suzanne respondeu segurando a mo dela entre as suas.
 Porque eu estava pensando uma coisa... Mame e papai no so felizes. Acho que eles 
deviam se separar... no ?
Suzanne enrubesceu.
 Bem, Elena, o divrcio no resolve todos os casos...
 Mas voc disse... quando duas pessoas so infelizes... 
 Elena, eu no sei nada sobre o casamento de seus pais!  protestou ela, tremendo ao 
imaginar o que Mazzaro diria se ouvisse aquela conversa.  Olha, veja esta flor aqui!...
  Eu queria... queria que eles se divorciassem...  disse ela com os lbios tremendo.  
Queria que mame fosse embora!
 Elena!
  verdade!  fungou a menina, esfregando o nariz.  Eu quero isso mesmo! Ela no 
gosta de mim, eu sei, e faz o papai ficar... rabujento. Ontem  noite eles estavam gritando um 
com o outro... eu ouvi. Papai foi ao quarto de mame...  do lado do meu.
Suzanne no sabia o que fazer. Como fora se envolver nessa conversa?
 Est ficando tarde, Elena. Vamos deixar para acabar outro dia
 Quando? Amanh?                        
 Acho que tem que ser amanh. Eu vou embora tera-feira.
 Voc vai?  Elena desanimou.  Mas... mas Pietro vai fica duas semanas!
 , mas ele est estudando. Pode ficar quanto quiser. Eu no. Eu tenho que trabalhar.
 Ah!... mas tera-feira, j? ... Voc volta aqui? 
Suzanne ficou indecisa. Tambm no podia desiludir a menina sendo sincera.                                   
 No sei... talvez.
Segunda-feira de manh Suzanne acordou com o rudo da chuva batendo na janela. 
Levantou-se e foi olhar. O cu estava cinzento completamente diferente dos outros dias.
Vestiu uma cala comprida e uma blusa e, quando estava acabando de se arrumar, Lcia 
chegou com a bandeja do caf. Vendo-a pronta, perguntou:
 A senhorita vai tomar o caf com o senhor conde?
 No. No... obrigada, Lcia. Vou tomar aqui mesmo.
 Est bem, senhorita.
  Sabe...  que hoje no estou com muita vontade de convesar...
 Eu tambm me sinto assim s vezes, senhorita. Est aborrecida porque est chovendo e 
hoje  seu ltimo dia aqui, no ?
Suzanne olhou para a janela com ar ausente. O tempo no tinha nada a ver com seu estado 
de esprito, mas era mais fcil concordar.
Lcia se retirou.
Ela tomou o caf e foi at a janela de novo. A chuva caa forte e a paisagem parecia ter, 
perdido a cor. Ser que era por causa da chuva que estava to deprimida? Ou ser que era 
porque sabia que dentro de vinte e quatro horas iria embora dali e nunca mais veria ningum? 
Mas, se era por isso, por que ficava ali se martirizando se o homem que ela mais queria 
encontrar estava l embaixo tomando caf? Sem ouvir a conscincia, encaminhou-se 
depressa para a porta e saiu do quarto.
Quando chegou  porta da sala de jantar, quase perdeu a coragem. E se ele no desejasse 
v-la?
Bateu de leve e ficou esperando com o corao disparado. Ningum respondia, estava quase 
desistindo, mas um impulso levou sua mo at o trinco. Abriu devagarinho e espiou pela 
fresta. Mazzaro estava sozinho, lendo o jornal.
Respirou fundo, abriu a porta, entrou e fechou-a de novo. Ficou parada ali. O rudo atraiu a 
ateno de Mazzaro, que ergueu a cabea com ar enfezado, mas quando viu quem era, 
mudou de expresso. Ficou srio e, largando o jornal, educadamente, levantou-se.  Bom 
dia  cumprimentou-a, sem entusiasmo , vai tomar caf comigo?
 No. ..  Suzanne caminhou em direo  mesa.  Eu j tomei. Por favor, sente-se. No 
queria atrapalh-lo. . .
 Ento por que est aqui, Suzanne?
 Bem, desculpe se estou incomodando, mas eu vim aqui porque queria me desculpar.
 Desculpar?
Ele estava tornando as coisas mais difceis para ela. Ela suspirou.
 Por causa daquela noite. ..
 Sbado?
 . Bem.. . voc se ofereceu para me mostrar a Villa no domingo de manhe... eu recusei... 
indelicadamente. ..
 Voc ia  missa, segundo me recordo.
 . Eu ia, mas... bem... eu vou embora amanh.. . e fiquei pensando se ainda seria 
possvel. . .
 Conhecer minha coleo hoje?
.
 Sinto muito, mas eu tenho um compromisso em Muvano agora de manh.
 Ah!. . .  Por que no pensara nisso? Como imaginara que o conde ficaria  disposio 
dela? Que no tinha compromissos?  Bem .. s queria dizer que senti muito ter recusado...
 Isso  comum para mim. No se preocupe.  Fez uma pausa.
 Era s isso?
Suzanne apertou os lbios para que ele no os visse tremer e balanou a cabea assentindo, 
sem coragem para falar.
Mazzaro pegou um pozinho.
 Creio que devo agradecer-lhe pela ateno que deu  Elena enquanto esteve aqui. Ela me 
disse que ontem ficaram juntas catalogando as flores que ela colheu.
 Ora... foi divertido para mim. Espero que no tenha se zangado por termos tirado sua 
enciclopdia do escritrio.
Mazzaro olhou-a com firmeza.
 E se eu lhe dissesse que pode tirar de mim o que quiser?
Suzanne engoliu em seco.
 No sei o que quer dizer..
  No?  Ele afastou a cadeira e ergueu-se.  No foi essa a impresso que tive, quando 
vi voc entrar aqui.
 Eu vim pedir desculpas... 
Ele deixou as muletas onde estavam e foi at ela, com a pose de um Medici. A expresso de 
seu rosto intimidava, e Suzanne quis sair dali, mas Mazzaro parou na frente dela, detendo-a, 
e mirou-a com um olhar intenso.                                
 No sei o que voc espera de mim, Suzanne, mas acho que voc deve estar consciente de 
que h uma certa... afinidade entre ns no ?
 As... suas muletas...  gaguejou ela tolamente.
  Ah! Meu Deus! Ser que voc precisa se lembrar sempre das minhas deficincias?  
assim que me v? Como uma criatura estraalhada, emendada, com cicatrizes, que ainda 
acredita que  um homem? 
 No!  exclamou ela com veemncia.  Ah... Mazzaro.
Inconscientemente, sua mo se estendeu e segurou a dele. Uma onda de excitao percorreu 
seu corpo quando ele apertou sua mo e levou-a aos lbios, acariciando-a com a lngua, de 
leve. Seus olhos se encontraram. Ento ele dirigiu a mo, abriu a camisa e fez com que ela 
sentisse o corpo rijo sob a camisa. Suzanne entreabriu os lbios, com a respirao ofegante.
 Suzanne!  murmurou ele, com voz rouca e cheia de emoo por perceber que ela estava 
to excitada quanto ele.
E Suzanne olhava aquele corpo desejando ardentemente que e a apertasse nos braos, que 
a beijasse, que ela pudesse sentir contra a pele a fora daqueles msculos... Mas reuniu toda 
sua fora de vontade e retirou a mo, afastando-se dele.
 Eu... preciso ir... Vou... arrumar as malas.
Mazzaro recurvou os ombros, com ar cansado, e com o rosto tenso disse:
 Eu vou adiar meu compromisso em Muvano, Suzanne. 
Ela ergueu a cabea num sobressalto.
 Adiar o compromisso?
 Exatamente.  Ele voltou at a mesa e pegou as muletas, mostrando-as  Suzanne.  
Desculpe-me, mas ontem eu fiquei muito tempo sem us-las e hoje estou pagando por isso.
 Mazzaro...
Mas os olhos dele estavam frios quando a olharam.
  No se alarme, Suzanne. No tenho a inteno de me aproveitar do interesse que voc 
demonstrou pela coleo. Mas j que voc vai embora amanh, posso adiar minha visita ao 
Museu de Muvano.  Fez uma pausa.  A no ser que tenha perdido o interesse pela Villa...
No era isso o que estava em questo, pensou ela. Ela acreditara nele quando dissera que 
no tinha inteno de se aproveitar... mas ser que ela podia confiar em si prpria? Quando 
pensava que esse era o ltimo dia e que depois no o veria nunca mais, sentia-se dilacerada.
  Se voc mudou de idia, Suzanne...
  No. No mudei.  Ela o encarou.  Mazzaro, voc acha que deve...
  Eu preciso telefonar para cancelar o compromisso.  Virou-se de costas para ela.  
Espero voc no saguo, daqui a quinze minutos.
Estavam na ala no habitada da Villa. Examinavam a galeria onde estavam os retratos de 
famlia. Mazzaro ia explicando, citando nomes, mas Suzanne no aprendia nem a tera parte 
do que ele dizia, embora aparentasse estar acompanhando tudo. Haviam parado diante de 
um quadro de Michelangelo da Caravaggio e Mazzaro explicava que esse pintor havia 
revolucionado a pintura italiana no s-rulo XVI. Falava com a prtica de um guia. Explicava a 
concepo de sombra e luz do pintor, e a desavena dele com a Igreja porque ele pintava 
figuras bblicas com ps descalos e sujos, e rostos suados.
Visitaram outros sales, com afrescos e esculturas, cristais, e o maior deles, que continha a 
coleo de objetos de prata e ouro. Havia
outro ainda, com moblias, e Mazzaro, diante de uma cadeira, comentou, em tom de 
brincadeira, que a moblia daquela poca no era confortvel.
  Veja, eu no teria coragem de me sentar a! Parece to frgil! Voc acha que ela 
agentaria meu peso?  brincou ele.
E Suzanne sorriu.    
 Mas voc no  um italiano tpico, no , Mazzaro?
  No sou? Ela se virou para disfarar a emoo que o olhar dele lhe causava
e disse nervosamente:
  Os homens italianos... em geral... no so to altos, so?
  A altura no  necessariamente uma condio fsica  comentou ele secamente.  
Vamos subir?
  Subir?  Suzanne virou-se para ele.  Os quartos tambm
esto abertos aos turistas?
  No. Mas se voc quiser v-los... S que devem estar cobertos de poeira. Suzanne sentiu 
um arrepio percorrer-lhe a espinha.
  No tem importncia...
  Est bem. Ento vamos. Mazzaro abriu uma das janelas para que ela visse a paisagem do 
vale e ficou em p ao lado dela. A proximidade dele a perturbava
incrivelmente. Mas logo se afastaram e continuaram pelo corredor at o primeiro quarto.
Os mveis estavam cobertos com lenis empoeirados. Ele no estava brincando quando a 
avisara. Havia teias de aranha pelos cantos. Era pena que aquilo tudo ficasse assim 
abandonado.
Percorrendo todos aqueles quartos, cheirando a mofo, Suzanne comeou a sentir uma certa 
nostalgia; sentiu a distncia que a separava da vida dos Falcone. Mazzaro pareceu ter 
captado seus sentimentos, quando falou:
  Em que est pensando? No podia dizer a ele, ento disfarou e respondeu qualquer 
coisa.
  Eu estava imaginando o que as pessoas usavam para dormir, naquela poca... Quer 
dizer.. . usavam pijamas?
  At o sculo XVI, parece que as pessoas em geral dormiam nuas. S quando fazia frio 
dormiam com a roupa com que estavam
 respondeu ele, com uma naturalidade desconcertante.
  Ah... sei.  Suzane umedeceu os lbios.
  Voc ficou chocada?
  No. Por que ficaria?!
  Pelo seu jeito, pensei que estivesse.
  Mas no estava! Isso no  nenhuma novidade.
  Concordo. Desculpe-me.
Ela resolveu se interessar por um objeto, para encurtar o assunto.
  Que bonito!  francs?
Ele se aproximou e o ombro dele se encostou no dela. Ficaram assim, prximos, sentindo a 
respirao um do outro, e o desejo torturante que crescia a cada minuto. Quase em cmara 
lenta, as mos dele chegaram a seus ombros e ela se abandonou ao xtase daquela emoo. 
Ele inclinou a cabea e ela fechou os olhos, sentindo o calor daqueles lbios que entreabriam 
os seus.
Era como se o cho sumisse sob seus ps. Nunca um beijo ou uma carcia de algum a fizera 
sentir aquilo! Mazzaro atingia as profundezas de seu ser, arrancando dela emoes to 
intensas que a assustavam. As mos dele a percorriam, apertando-a contra o corpo dele. Ela 
tentou afastar-se, assustada.
  Suzanne...  murmurou ele, fora de si , no posso mais me conter... eu sou apenas um 
homem...
  Eu sei. . . eu sei  respondeu, tentando se desvencilhar.
 No tenha medo de mim, Suzanne.
  Eu no estou com medo... de voc. . .
  No, mesmo? Quem sabe!...  A amargura em sua voz fez bom que ela abrisse os olhos. 
 Ah!. . . Mazzaro. .. por favor. . .
Os lbios dele silenciaram seu protesto e dessa vez ela se apertou contra o corpo rijo dele, 
entregando-se com volpia. Queria sentir mais, queria sentir a pele dele contra a sua, queria 
deitar-se naquela cama com ele. . .
Mas, de repente, ele parou de beij-la e olhou-a nos olhos, preocupado.
 Precisamos sair daqui!
 Eu sei.. .
 No vou pedir desculpas.
 Eu no quero que pea.
 Voc sabe que eu quero fazer amor com voc?
 Sei.
 Por isso  melhor que v embora.
 Ser?
 Suzanne, voc me falou. . .               
 Eu sei.  verdade. Mas eu nunca... nunca...
Ela no conseguiu terminar. Sem obedecer-lhe, as mos comearam a desabotoar a camisa 
dele, trmulas. Ela perdera o controle. Mergulhou os dedos nos plos negros do peito dele. 
Mazzaro olhava imvel, mas de repente, com um gemido, agarrou as mos dela afastou-a de 
si, abotoando de novo a camisa.
  Mazzaro...  murmurou, com voz doda.
  Eu sou humano, Suzanne. At quando voc acha que posso resistir?
  Voc est bravo?
  Bravo? Meu Deus, Suzanne! Estou tentando no perder a cabea!  Pegou as muletas 
de novo e disse:  Vamos embora?
Suzanne suspirou.
  Ser que  necessrio usar isso, agora?  exclamou ela, impaciente, apontando para as 
muletas.  Voc no precisa delas, precisa? Quero dizer.... pelo menos agora... O que elas 
so para voc uma defesa? Uma barreira? Algo para manter as pessoas a distacia? 
Mazzaro olhou-a sem sorrir.  No queira me analisar, agora, Suzanne!
  No o estou analisando, mas acho que h um fundo de verdade no que eu disse. Por que 
voc faz isso, Mazzaro?  s por causa do seu rosto?                                              
  Suzanne!
  Mazzaro, se voc no precisa das muletas, para que manter essa farsa? Voc tem tantas 
outras coisas!
  Eu sei. Uma villa em runas e um casamento em runas.
  Podia ser diferente. Voc podia... se divorciar.
  No h possibilidade!  afirmou friamente.  Pelo menos nesta famlia. No me entenda 
mal, Suzanne, mas casamento no vai entrar em nosso relacionamento.
  Eu no sugeri que entrasse!
  No. Voc no sugeriu. Suzanne, eu posso desej-la muito, mas eu no poderia fazer de 
voc uma mulher honrada.
Ela no se surpreendeu com a honestidade dele. Isso era uma das caractersticas dele que 
mais a atraam. Esse era o tipo de homem que ele era! Contudo, as palavras dele no eram 
um consolo para o brusco esfriar de suas emoes. Parecia impossvel que h alguns 
instantes ele estava em seus braos, trmulo e ofegante. E agora estava to... to distante! 
Como ele conseguia ter controle assim?
Ah! se ela tambm pudesse... Como seria possvel que em todas as outras ocasies ela ficara 
to indiferente e com esse homem perdia todas as defesas? As palavras dele doam, mas o 
que mais a feria era a indiferena. Do fundo de seu ser comeou a brotar um ressentimento 
que se transformou em raiva, explodindo em palavras:
  Foi voc que mencionou o casamento, no eu!
  No vamos discuti-lo, j disse.
  No?  Suzanne se empertigou.  E por que no?
  Suzanne, no vamos nos envolver numa discusso ftil. Sinto muito se fiz algo que a 
ofendesse...
  Me ofendesse?!  Ela arregalou os olhos, incrdula.  Ora, vamos! Voc fez comigo o 
que no permiti nunca a nenhum homem e agora vem me dizer que sente muito se me 
ofendeu!. ..
  O que eu fiz? Eu beijei voc.
  Beijou no  bem o termo! E quando.. .
  Suzanne, pare com isso!
  Por qu? No fica bem discutir os detalhes srdidos?
  Eles no so srdidos, Suzanne!
  No?  Sentia prazer em feri-lo.  Ento por que prefere no le lembrar deles?                  
0 rosto dele estava tenso, com marcas da raiva que ele tentava controlar.
  Suzanne, eu tentei explicar.. .
  E o que eu devo fazer? Recolher-me  minha insignificncia e dizer: "Est bem, senhor 
conde, esquea tudo"?
Mazzaro ensaiou um gesto ameaador, mas se deteve bruscamente.
 Acho que est mais do que na hora de descermos. No vai adiantar nada ficarmos nos 
ofendendo com palavras. 0 queixo de Suzanne tremia e era difcil se controlar.
 Ora, mas  claro! Esqueci-me de sua reputao. No ficaria bem, no ?  
 Suzanne...  Havia resignao na voz dele, agora. 
 Ah! Mazzaro! Por que voc fez isso? 
Ele a olhou intensamente por um longo e perturbador instante, depois virou-se.
 Vamos. J passa de meio-dia. Pietro deve estar imaginando onde voc se enfiou.
 Eu no ligo para Pietro...
 Mas talvez devesse. Ele nunca lhe falou? A no ser que eu, por milagre, tenha um filho, 
tudo isso aqui ser dele, um dia!


CAPTULO VIII


 Vai chegar um grupo de trinta americanos, tera-feira que vem, Suzanne. 0 roteiro turstico 
j est pronto, eu s queria que voc providenciasse umas entradas de teatro. Ser que pode 
fazer isso?
 Posso sim, sr. Norton.  Suzanne, sentada  escrivaninha, em seu escritrio, ergueu a 
cabea e olhou para o gerente do hotel.  Eles tm preferncia por algum tipo de espetculo?
 Bem. . . acho que depende do que est em cartaz. Reserve ingressos para alguns musicais 
e algumas peas clssicas.
  Est bem. Vou dar um jeito.
 timo!  Ele j ia se retirar quando resolveu acrescentar algo: Suzanne, no quero que 
pense que sou um velho intrometido, mas . . voc est se sentindo bem?
 Eu?  perguntou para ganhar tempo.  Claro que estou bem, porqu?
 No sei. . . mas, desde que voltou da Itlia, no ms passado, voc tem andado plida e 
abatida. Ser que est doente?
 Eu no, pelo amor de Deus! No h nada de errado.  que.. . bem, est muito calor. . . s 
isso!
  Ser que no tem nada a ver com o fato de ter parado de se encontrar com aquele jovem 
italiano?  perguntou ele, sem acreditar no que ela dissera.
 No. Pietro e eu ramos s amigos, nada mais. E. .. sabe como , no ? Conviver com 
algum por mais tempo s vezes muda as coisas.
 , eu sei. s vezes a gente se decepciona,  Ele fez uma pausa.
 E ser ento alguma coisa que Fezik lhe fez?
 No. Ele est viajando.
 , eu sei, mas vai voltar daqui a uns dias. Voc vivia fugindo dele, no ? 
 O senhor sabia?
  claro., s que no podia interferir. Ele  muito amigo do velho Stassis, sabe como ...
 , eu compreendo.
 Em todo caso, ele no  nenhum monstro... Bom, a vida  sua, no vou me meter. S 
quero que no trabalhe demais, est me ouvindo? No pretendo perder minha secretria por 
estafa. V com calma, est bem?
 Sim, senhor.                               
Assim que ele saiu, Suzanne levantou-se, foi at a janela e ficou olhando a rua. Desde que 
voltara a Londres no tivera muito trabalho que a ocupasse, e esse  que era o problema, 
pois ficava com tempo demais para pensar e lembrar o que acontecera em Castelfalcone.! 
Talvez, se fosse temporada de muitos hspedes e o hotel estivesse cheio, ela se distrasse 
com o servio. Mas, nessa poca, Londres estava calma e ela no tinha o que fazer.
No vira mais Pietro. Ele lhe telefonara uma vez, mas ficara s nisso. As relaes entre eles 
ficaram abaladas depois dos feriados juntos. Perto de Mazzaro ele parecera ridiculamente 
imaturo, embora tivesse a mesma idade dela, e as discusses que tiveram havia
estragado a camaradagem.
Por conseqncia, ficara sozinha. Havia perdido o contacto com suas amigas, de tanto viajar, 
e como no gostava de sair sem companhia, preferia ficar s em seu apartamento, que se 
tornara sua priso. E ficava remoendo a idia de que nunca mais veria Mazzaro e morrendo 
de desgosto e agonia quando lembrava como se comportara com ele. Por que discutira com 
ele? Por que reduzira o relacionamento deles a termos vulgares? Belas recordaes Mazzaro 
teria dela! At quando iria se torturar com esses pensamentos? Precisava fazer algo para 
acabar com isso! Na noite seguinte recebeu um telefonema da me.
 Suzanne,  voc?
 E quem poderia ser, mame?  perguntou, de mau humor.  Sou eu, sim. Tudo bem?
 Tudo. Sabe,  que vou  cidade quinta-feira e queria saber se poderamos almoar juntas.
  claro!  exclamou, contente com a perspectiva.  Onde nos encontraremos? 
Combinaram se encontrar num restaurante  uma hora, mas Annabel chegou quase meia 
hora atrasada.
  Ah, Suzanne, desculpe o atraso...  que fui ao cabeleireiro, e sabe como ... no ? 
Sempre fazem a gente demorar mais do que imagina!
 Est muito elegante  cumprimentou ela, enquanto a me se sentava.  Vamos tomar 
aperitivo ou j posso pedir os pratos?
 Ah! Vamos pedir a comida. Estou morta de fome! 
Quando o garom veio, Annabel pediu uma garrafa de vinho alemo.                               
 Por que tudo isso?  perguntou Suzanne, surpresa.  Mudou o penteado e agora pediu 
vinho. O que estamos comemorando?
  que Neil conseguiu o contrato para o projeto da nova escola! Vamos  Alemanha na 
prxima semana para comemorarmos. Uma excurso pelo Reno, j imaginou? Desde a lua-
de-mel que no me sinto to animada!
  Fico contente por vocs. Faz tempo que no tiram umas frias.
Suzanne bateu de leve na mo da me.
 . Neil est sempre to ocupado...
Conversaram sobre vrias coisas durante o almoo, mas afinal Annabel acabou percebendo 
que a filha no comera quase nada.
 Voc est to abatida, Suzanne! Voc est doente? - Eu estou muito bem, obrigada.
 Mas voc quase no comeu. ..
 Est muito calor. No tenho apetite.
 , de fato est quente. Mas voc est acostumada. J trabalhou na Grcia e na Itlia, 
durante o vero, e nunca reclamou.
 E isso tem importncia?
 Ora,  claro.  Annabel examinou a filha, preocupada.  Voc no est... quer dizer... 
ser que andou fazendo alguma besteira?
 Tal como. . . ficar grvida, voc quer dizer?
 Shh! Fale baixo. Ou voc quer que todo mundo oua?
  Mame, eu no sou to boba assim! Alm disso, hoje em dia ningum mais precisa correr 
esse risco. Para isso existe a plula, no ?
 A plula! Sabe-se l se no faz mal...
 Talvez. Mas eu preferiria tomar a plula a ter que enfrentar uma gravidez indesejada.
 Suzanne!  A me dela arregalou os olhos.  Ser que voc est querendo me dizer... 
que... que voc dorme com todos esses homens com quem voc sai?
 No!  exclamou exasperada.  No  nada disso!
  Eu acho terrvel o modo como se comportam as jovens hoje em dia. S querem saber 
disso. Depois, quando casam, no tem mais novidade nenhuma! Nunca pensei que voc 
tambm fosse assim, Suzanne...
 E eu no sou  respondeu impaciente.  Ora, vamos mudar de assunto, pelo amor de 
Deus.
 Bom, se voc no est grvida, ento o que h de errado com voc? Eu posso no ser 
uma me dedicadssima, mas sei quando voc no est bem.                                  
 Sabe? Mas eu s posso repetir que estou tima. No tenho nada.
 O que aconteceu na Pscoa?
 Como assim? No entendi.
  No queira me despistar. Isso no  um interrogatrio policial! .. .  que voc sempre 
passa os feriados conosco, e este ano, como voc no apareceu, eu telefonei, mas ningum 
sabia para onde tinha ido.
  que eu viajei. . .
 Para onde? Com quem?
 Para a Itlia. . . Fiquei na casa da famlia de um estudante italiano que eu conhecia.
 Mas por que no nos avisou?
 Decidi de repente. Eu no ia, mas no fim mudei de idia.
 . . . vai se fiando nos italianos! Os homens italianos...
 No! Pietro  de boa famlia, no havia perigo. E alm disso, como sabe de que jeito so 
os italianos? Voc no devia acredita em tudo o que l.
   que s vezes fico preocupada. . . voc morando aqui sozinha. .. e viajando tanto. . . No 
v se envolver com algum estrangeiro!
 Ora, mame, eu sei tomar conta de mim.
Mas ser que sabia? O que diria sua me, se soubesse que ela se envolvera com um homem 
casado e ainda por cima italiano? Se Mazzaro quisesse, poderia ter-se aproveitado dela, 
naquele dia! E se ela tivesse ficado grvida dele? Afinal, ela no tomava plula, pois nunca se 
envolvera a esse ponto com nenhum homem!
Acabaram de almoar e Suzanne voltou ao servio. Estava ocupada quando algum entrou 
em seu escritrio.
 Sr. Fezik!  exclamou meio apreensiva.  Em que posso ajud-lo?
 Em muita coisa! S que voc parece que no quer. . .
 Sr. Fezik, eu estou muito ocupada. Se no vai falar a srio...
 Voc  muito sincera, Suzanne. Pois bem, tambm vou ser. Tenho entradas para o 
concerto.  Colocou um envelope sobre a escrivaninha dela  Gostaria que fosse comigo.
 Sr. Fezik, eu. . . Quando  o concerto?
 Hoje  noite.
 Ah.. . desculpe, mas minha me est aqui hoje. . .
 Que pena... porque as entradas so para amanh  concluiu com ar triunfante.  Eu 
estava s provocando para ver o que diria. Sabia que ia recusar de novo  falou, bravo.  O 
que h de errado comigo? Ser que tem preconceito? Ento como  que saiu com aquele 
italiano?
 No  nada disso, sr. Fezik.
 Ento o que ?
 Eu no devo me envolver com os hspedes do hotel.
 Por que no?
 Olhe, sr. Fezik, eu preciso trabalhar... 
Nesse instante bateram  porta e ela se sentiu salva. Correu para abri-la e ficou de olhos 
arregalados quando viu quem era.
 Carlo!  exclamou afinal.
 Elena tinha razo. Que memria tem aquela menina! Suzanne sentiu uma revoluo dentro 
do peito. Quantas emoes esse simples nome despertara!
O sr. Fezik olhou enfezado para Carlo e resmungando saiu, batendo a porta.
 O que houve, Suzanne?
v Ora, no foi nada. Sente-se.  Fez uma pausa e depois disse, ansiosa:  Voc falou em 
Elena. Aconteceu alguma coisa?
 No. Por qu? Disse que ela tem boa memria porque se lembrou do nome do lugar onde 
voc trabalha. Voc esteve conversando com ela, no ?
 , estive, mas...
 Eu no lhe disse que costumo vir a Londres? Devia imaginar que eu apareceria. Afinal, eu 
lhe fiz um convite. Ento Mazzaro tinha razo! Como ela no percebera?
 Eu no fui bem claro, na ocasio, porque no podia. 
Ela sabia que ele se referia a Sophia, que os observava.
 Vai ficar muito tempo em Londres?  perguntou ela, desconversando.
 Vou ficar s uma semana. Mas podemos aproveitar para nos conhecermos melhor.
 Ah!... sinto muito, mas acho que vou estar ocupada.
 Ora, vamos! Voc no trabalha  noite.
 s vezes. E... depois, tenho outros compromissos..
 Mas eu vim especialmente para v-la!  disse, bravo.  Voc no parecia to 
desinteressada, na Itlia.
 Nem voc parecia interessado em mim. Achei que seu interesse era a condessa. 
No era muito delicado mencionar isso, mas no tinha sada.
 Sophia e eu somos amigos!
 Amigos ntimos...
 Est bem, est bem!  respondeu, vendo que no adiantava negar. Sorriu malicioso.  
Muito ntimos, mas Sophia est na Itlia e voc est aqui!
Mas que atrevimento! Suzanne ficou olhando para ele abismada. Ser que ele pensava que 
ela se sentia envaidecida com o que dissera? Primeiro o sr. Fezik e agora Carlo! Por que os 
homens sempre pensavam que uma mulher bonita s servia para se divertirem? 
 No posso sair com voc, Carlo. Sinto muito, mas est perdendo seu tempo.
 Voc me decepciona, Suzanne. Pensei que j tivesse superaido a paixo pelo conde, 
depois de tanto tempo!
Suzanne ficou boquiaberta. Procurou depressa disfarar o que essas palavras haviam 
provocado nela. Mexeu nos papis sobre a mesa, ao acaso, e encontrou o envelope da 
entrada de teatro que Fesij esquecera.
 No sei do que est falando  disse afinal, tentando parecer natural.  Agora, se me d 
licena...
 No acredito, Suzanne. Seria interessante contar a Sophia minha desconfiana! Mazzaro 
sempre a desprezou por causa de sua... digamos... fraqueza emocional. Ela gostaria de saber 
que talvez o marido no seja to santo quanto faz parecer...
 Est me ameaando?  perguntou friamente. Meu Deus! Ele era bem pior que o sr. Fezik. 
Nesse momento
porta se abriu e ele entrou novamente.
 Desculpe a intromisso. Esqueci as entradas.
 Ah! . Um minutinho, sr. Fezik...  Suzanne ergueu-se, segurando o envelope.  Carlo j 
est de sada e eu gostaria de fala com o senhor.
 Creio que estamos entendidos, no ? - disse desafiadoramente, olhando para Carlo. 
Sem dizer nada, ele olhou para o sr. Fezik e saiu da sala. Suzanne
suspirou aliviada.
 Voc no queria falar comigo, queria?  Pegou as entradas e, vendo a expresso dela, 
virou-se para sair.  Eu bem que imaginei!
 Devo lhe agradecer por me salvar.
 Ele  to perigoso assim?
 S um pouco.
 Posso fazer alguma coisa? De repente, ele se tornou gentil e quase paternal. Ela ficou com 
os olhos cheios de lgrimas. - Acho que no.
 Bem, se mudar de idia...
 Ainda quer me levar ao concerto? - perguntou impulsivamente.
 Quer dizer que afinal vai aceitar um convite meu?!...
 Sim. 
 Ah! As mulheres!  Ele balanou a cabea.  Qual  o homem que consegue entende-
las?!


CAPTULO IX


Suzanne acordou com uma campainha e, meio tonta ainda, automaticamente estendeu a mo 
para desligar o despertador, mas a campainha continuou. Percebeu ento que era o telefone. 
Empurrou as cobertas e foi cambaleando at a sala. Que horas seriam? Que dia era? Ah! era 
domingo!
 Al?
 Suzanne?
Uma voz que ela imaginara nunca mais ouvir fez com que tremesse, sentindo fraqueza nas 
pernas. Apoiou-se na poltrona.
 Mazzaro?
 Suzanne! Como vai voc?
 Estou bem... Onde voc est? 
 Em Londres.  Fez uma pausa.  Gostaria de encontrar voc. 
Ser que ela estava sonhando? Como seria possvel? Ele em Londres? No podia acreditar.
 Voc no quer me ver?  perguntou ele, com voz j meio rspida.
 Eu. . .  no conseguia dizer nada.  Que horas so?
 Horas?  Ele ficava impaciente.  Quase onze horas.
 Nossa!  Tambm, fora se deitar to tarde! Fora a uma festa com Abdul. Era a terceira 
vez que saa com ele, e ele j no lhe causava medo. Descobrira que, afinal, aquela 
agressividade era uma mscara, e no fundo ele era um homem respeitador e sensvel.
 Ser que tirei voc da cama?  perguntou Mazzaro em seguida.  Desculpe, mas pensei 
que j estivesse acordada.
 Eu... fui dormir tarde, ontem...  Ficou de novo sem saber o que dizer.  Onde voc est 
hospedado?
 Que importncia tem isso?
De repente ela ficou com medo de que ele desligasse e disse a primeira coisa que lhe veio  
cabea.
 O que voc est fazendo aqui?
 Isso  problema meu, no acha? Bem, vamos nos encontrar ou no?
  claro que sim!  exclamou ela com veemncia.  Quando? Onde?
 Eu passo para pegar voc digamos... dentro de uma hora, est bem?
 Est timo!  E, criando coragem, acrescentou:  Estou louca para ver voc!
  Est bem, ento at mais tarde.  E desligou, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
Suzanne correu para tomar banho e se arrumar. Por que ele estaria em Londres? S a 
perspectiva de v-lo a deixava completamente fora de si. No conseguia escolher uma roupa. 
O tempo estava passando... Afinal vestiu qualquer coisa e saiu apressada. Viu se aproximar 
um Jaguar que estacionou diante dela. O corao disparou quando a porta se abriu e surgiu 
Mazzaro, que desceu para lhe abrir a porta. Vestia um terno claro e elegante, e o andar 
estava mais firme do que antes. Ela apertou a bolsa com as duas mos, disfarando o tumulto 
que a presena dele causava. 
 Ol, Suzanne, entre, por favor.
Suzanne olhou para aquele rosto inesquecvel. Afinal, o que tinha esse homem de to 
especial para lhe provocar tanta emoo? Ele que lhe dissera no poder fazer dela uma 
mulher honrada?
Ela entrou no carro e ele fechou a porta. Deu a volta, sentou-se  direo e ficou em silncio, 
concentrado no trnsito. Suzanne aproveitou para examin-lo bem, embora disfaradamente. 
Percebeu nele um certo ar abatido e de cansao, como se as coisas no estivessem fceis 
para ele tambm. Isso lhe despertou uma onda de sentimentos, de repente, uma palavra se 
fez mais ntida: "amor". Seria amor o que sentia por ele?
 Tentei ligar para voc ontem, mas no a encontrei em casa.
 ... eu... sa.
 Com amigos?
 Com um amigo.
 Ah... sei. Divertiu-se?
  Por que est me perguntando tudo isso?  protestou ela.  Certamente, no pode ser 
por interesse em mim e no que fao!
  Mas .  Olhou-a de relance.  Quem era ele? Algum que conheo?
 Mas como poderia ser?  Ela arregalou os olhos para ele.
 Poderia ser Pietro ou Carlo...
 Carlo? Ele... est em Londres?
 Deve estar, pelo que sei. Ele esteve, h algumas semanas, no foi?
 Ele... contou para voc?
Mazzaro balanou a cabea negativamente, com uma expresso enigmtica. 
 Elena me disse que ele perguntou a ela onde voc trabalhava.
 Ah... sei.
Suzanne baixou a cabea, esperando que ele dissesse algo. Mas por que ele no falava nada? 
O que estaria esperando? Ser que no ia perguntar se ela sara com ele? Afinal, ela mesma 
resolveu falar.
 Ele... esteve no hotel... bem... voc no vai me perguntar mais nada?
 Isso no me surpreende.
 Eu no sa com ele, sabia?
 No?!
 No! Voc estava certo, quando disse que ele marcara encontro comigo, naquela noite... 
mas eu no percebi!
Mazzaro no disse nada. Estava concentrado no trnsito. Dirigia como se conhecesse muito 
bem Londres. Quando chegaram ao Parque Richmond, ele procurou um lugar, encostou o 
carro e desligou o motor. O lugar era tranqilo. Mazzaro virou-se para olh-la e estendeu o 
brao sobre o encosto do banco dela.
 Voc parece estar cansada.
 Muito obrigada pela observao.
 0 que voc queria que eu lhe dissesse?
 Nada, . . seja sincero! Alis, acho que eu posso dizer o mesmo de voc.
 . Eu sei. No tenho dormido bem.
 No? Mas eu pensei. . . quer dizer, achei que voc est andando bem. Melhor, com mais 
facilidade.
 E estou. Minhas costas melhoraram bem. Uma amiga minha tem-me feito massagens e 
isso foi muito bom.
 Uma amiga?
 . Uma mdica.
Suzanne pensou logo em Marina e sentiu cime. Teve vontade de morrer, s de pensar nessa 
mulher tocando o corpo dele, massageando-o. Ela se lembrava bem da historia e das 
insinuaes de Pietro. Mazzaro a observava com um olhar profundo.
 E se eu lhe dissesse que minha insnia no tem nada a ver com meus problemas fsicos?
 Mazzaro...
 Quem era o homem com quem saiu? Voc gosta dele?
 Ele  um hspede do hotel. S sa trs vezes com ele. Ontem fomos  festa de lanamento 
de um filme. Se eu soubesse que voc...
Mas interrompeu-se bruscamente. No podia revelar a ele que estava louca para v-lo e que 
sempre estivera, durante todo aquele tempo.
 Continue, Suzanne, se voc soubesse que eu o qu?
  Bem... se voc tivesse me avisado antes de que viria a Londres, eu poderia ter adiado 
meus compromissos. . .
No era o que ela iria dizer, e ele sabia disso. Ele sorriu com ironia e passou a mo pelos 
cabelos.
 Sei. . . E voc sai muito? 
Imagine! Ela que passara dois meses trancada no apartamento, torturada com a lembrana 
dele! S sara trs vezes. Mas preferiu responder com uma pergunta.
 E voc?
 Aonde  que eu poderia ir?
  Um homem na sua posio deve ter muitos compromissos sociais!
 Aos quais compareo sempre ao lado da linda condessa. . .
 ...
  Voc deveria saber muito bem que eu no saio com Sophia nunca!
 E por que no? Ela  uma mulher bonita. Voc acabou de dizer.  Fez uma pausa, 
nervosa, mas no pde impedir as palavras que vieram depois:  Por que voc a odeia tanto? 
Se ela ficou apavorada, na ocasio do acidente, isso no  motivo para voc continuar a puni-
la, assim, ? Medo. . . e outras coisas so fraquezas perfeitamente humanas. . .
 Eu conheo bem as fraquezas de minha esposa! E, alm disso, meu aspecto quase no 
tem nada a ver com isso!  Ele lhe lanou um olhar fulminante.  Mas, me desculpe. . . no 
sabia que ela tinha arranjado uma advogada!
Suzanne reprimiu o choro. Abriu a porta do carro e saiu correndo. Ele no esperava por isso. 
Abriu a porta e saiu tambm, furioso.
 Suzanne!  gritou, e sua voz perdeu-se entre as vozes alegres das crianas que 
brincavam ali.
Mas ela o ignorava, continuando a correr no calor daquela manh, at que, cansada e suada, 
parou na sombra de umas rvores, procurando um leno na bolsa. Um pouco depois, sentiu 
que a seguravam firme pelo brao, fazendo com que se virasse.
 Mas o que significa isso?  perguntou ele, com o rosto vermelho pelo esforo que fizera.
 Eu... voc no deveria ter corrido atrs de mim!
 E o que deveria fazer? Deixar que voltasse a p para o hotel?
 Devia ter feito isso.
 Eu posso ter vrias intolerncias, mas nunca abandono uma mulher que est comigo!
 Mazzaro...  suspirou ela  isso no  bom. . . 
 Concordo. Talvez isso seja melhor. . . 
E segurou-a pelo ombro, puxando-a para si e beijando-a. Ela entreabriu os lbios, 
instintivamente, e abandonou-se. As pernas dele, encostadas s suas, despertaram nela uma 
sensualidade que fez com que o enlaasse pela cintura, apertando-o contra seu corpo.
 Isso no  melhor?  murmurou ele, acariciando-lhe a orelha com a lngua. Ela se 
arrepiou.
 Algum pode estar olhando.. .
 E isso a preocupa?  Afastou-se um pouco.
 Quanto. . . quanto tempo voc vai ficar em Londres?
 Depende...  Ele a soltou.  Venha, vamos almoar. Precisamos conversar.
Voltaram juntos para o carro. Ela tentava se controlar. Aquele beijo ainda era pouco, sentia-se 
insatisfeita. Queria mais do que isso.
Ele a levou para um restaurante que ficava num hotel, em que as mesas ficavam numa 
sacada dando para a piscina. Pediu Martini e ordenou os pratos que haviam escolhido. 
Quando o aperitivo chegou, Mazzaro lhe perguntou:
 Aquilo que voc disse sobre Sophia  o que voc realmente acha ou disse s para me ferir?
 Por que eu iria querer ferir voc?
 No sei. Vingana, talvez...
 Vingana?  Ela se indignou,  Ento voc acha que me ofendeu?!
 Ora, vamos, Suzanne.  Olhou-a nos olhos.  Se continuarmos a nos cercar de palavras, 
no vamos chegar a nada! Voc sabe to bem quanto eu que podemos nos magoar muito 
com palavra
 E... eu feri voc?
 Meu Deus, Suzanne, ser que no sabe? Quer que lhe mostre meus ferimentos?
 Voc... queria falar comigo, no ?
 Aqui no!
 Depois do almoo poderamos ir at meu apartamento...
 Gostaria muito.  Estendeu a mo e apertou de leve a dei  Gostaria de conhecer o lugar 
onde mora.
 Como vai Elena? Pensei em escrever para ela, mas achei que voc no aprovaria.
 Provavelmente eu roubaria todas as cartas e as guardaria comigo. Suzanne, voc no 
imagina como eu queria v-la de novo. Esses dois meses quase me deixaram maluco!
 E, apesar disso... voc s veio me ver agora que precisa encontrar Carlo...
  isso o que voc pensa?
 
 Pelo amor de Deus, Suzanne. Eu no sabia onde encontra-la. Voc no me falou onde 
trabalhava! Sabe quantos hotis h em Londres?
 Pietro sabia.
  E voc acha que ele me diria se eu lhe perguntasse? Ou que no iria criar caso? 
Desculpe-me, Suzanne, mas eu no podia fazer isso a Elena. Ela tem to pouco...
 E ela contou para voc?
 Contou. Ela estava preocupada com voc por ter contado a Carlo onde voc trabalha. 
Ento foi me procurar. E eu fiquei duas vezes mais preocupado, juro...
 Quando decidiu vir a Londres?
 No foi fcil. Ao contrrio do que voc pensa, no sou to seguro assim. Eu nem mesmo 
sabia se voc queria me ver. Eu comeara o tratamento de massagens, que no podia 
interromper.
 Com a mdica amiga sua...
 . Mas por que falou nesse tom? Voc no aprova massagens?
  claro que aprovo!  Fez uma pausa e largou o talher.  Est bem, j que estamos 
sendo sinceros...  Marina a mdica, no ?
 Como sabe?
 Uma noite, enquanto eu estava na sua casa, voc foi jantar na casa dela.
 , fui.
 Pietro disse que vocs cresceram juntos...
 S isso? Por acaso ele lhe falou tambm que queriam que ns nos casssemos?
 Falou sim.
 Voc est com cimes, Suzanne? Mas por qu? Se eu quisesse casar com ela, eu o teria 
feito h quinze anos!
 Teria mesmo?
   claro! Meu Deus, Suzanne! Voc no precisa ter cimes de Marina! No mesmo...
 Mas  ela que... que faz massagem em voc, no ?
 , mas no h nada entre ns. E, alm disso, qual  o romantismo de ficar sendo 
amassado por algum que est apenas exercendo uma profisso?
 Como  ela?
 Marina?  pequena, morena e magra.  cheia de energia! Voc iria gostar dela.  uma 
tima pessoa. 
 Por que no se casou com ela? 
 Nunca pensei em casar com ela. 
 Mas seus pais queriam, no ? 
 . A famlia dela  muito rica. Meu pai estava interessado
 E voc se rebelou?
 No foi assim. Se eu amasse Marina, nada me impediria de casar com ela, Suzanne. Mas 
eu no a amava... e meu pai e eu discutimos muito... No fim eu resolvi ir embora para Roma.
 E a voc encontrou Sophia...
 . 
Os dois comeram muito pouco e quase se sentiram aliviados quando o garom levou os 
pratos embora.
 Vamos tomar caf em casa?  sugeriu ela, provocante, e Mazzaro imediatamente pediu a 
conta. 
Suzanne indicou o estacionamento do hotel onde morava. Assim que entraram, ela foi abrir as 
janelas. Ele ficou parado, examinando o local com interesse. Suzanne largou a bolsa e olhou 
em redor. De repente tudo parecia ter ficado pequeno e feio, e, lembrando-se da Villa Falcone, 
ela imaginou o que Mazzaro estaria achando do lugar
 Ento  aqui que voc mora!... Encantador...
 Ora, no  nada... mas pelo menos  meu. Mazzaro aproximou-se e segurou o rosto dela 
entre suas mos olhando-a intensamente.
 Eu gosto  disse, acariciando-lhe as faces.  Voc tem bom gosto. 
  tudo barato...  comeou ela, mas os dedos dele silenciaram seus lbios.
  moderno, alegre e funcional. Exatamente o que deve ser um apartamento.                                  
 Pare de fingir...  pequeno, abafado e eu no tive tempo fazer a limpeza, hoje.
 E aquele caf que voc prometeu, hein?  Ele mudou de assunto.  Voc se incomoda 
se eu tirar o palet?
  claro que no.  Suzanne foi para a cozinha depressa. Que belo comeo! Por que ele 
fora falar do apartamento?  claro que ele estava sendo gentil! O que ela queria?
Estava arrumando as xcaras na bandeja quando Mazzaro parou na porta da cozinha. Ele 
havia tirado o palet, aberto o colarinho da camisa e arregaado as mangas. Apoiou-se ao 
batente, observando-a, e ela procurava manter a linha.
  caf instantneo  disse ela, despejando gua quente sobre os gros, voc no se 
incomoda? 
 Nem um pouco. Deixe que eu carrego.
 No precisa. Eu levo.  Ela se virou de lado para impedir que ele pegasse a bandeja, e 
com isso derrubou caf nas costas da mo. 
Ele segurou a bandeja.
 Agora deixa que eu levo  e foi para a sala.
 Obrigada. No costumo ser to desastrada.
O rosto de Mazzaro estava tenso, com a emoo contida. De repente ele segurou-lhe as 
mos, beijando onde cara caf.
 Suzanne... pare de me evitar!
Ela olhou para ele, sentindo o perigo da situao mas incapaz de se afastar. O perfume 
msculo daquele corpo estimulava suas emoes e todo o resto pareceu sumir. S havia 
aquele enorme desejo dentro dela. Os lbios dele moveram-se percorrendo seu brao numa 
sensual carcia, incendiando seu corpo. Ele chegou mais perto e ela sentiu as coxas rijas dele 
contras as suas. Sentiu o perfume que ele usava quando encostou o rosto no seu peito e 
acariciou-o com os lbios.
  Suzanne...  gemeu ele.  Beije-me. Suzanne, beije-me de novo! Abrace-me... quem te 
ensinou...
  Voc!  murmurou ela abraando-o e oferecendo seu lbios. E ela sentiu nele o mesmo 
desejo que a consumia.
Ela s ouviu a respirao ofegante dele e o bater descompassado do corao. Abriu-lhe a 
camisa para senti-lo mais perto. E os dedos dele procuraram o zper de seu vestido, que caiu 
no cho com um leve farfalhar de seda. Ele a carregou nos braos em direo a porta que s 
poderia ser do quarto. Empurrou a porta com o p e deitou-a na cama. Suzanne permanecia 
de olhos fechados e entregara-se aquele momento to esperado. Pouco depois j estava a 
seu lado e o beijo que trocaram fez desabar o resto do mundo.
Neste instante, bateram  porta do apartamento, arrancando de Mazzaro um gemido de 
angstia.
  No v abrir  murmurou com voz rouca.  Pelo amor de Deus, Suzanne, deixe baterem.
 Eu preciso  protestou ela.  Pode ser algum do hotel. Mazzaro virou-se de costas na 
cama.
 Por que no telefonaram? Suzanne inclinou-se e beijou-lhe o rosto.
 No vou demorar prometeu e levantou-se. Vestiu o roupo de seda e foi abrir a porta.
Um homem estranho invadiu seu apartamento e sem querer ela gritou. Mas atrs dele entrou 
outro que ela conhecia bem e que arrancou dela uma exclamao de surpresa.
 Ol, Suzanne  disse Carlo ironicamente , que mundo pequeno, no?
 O que est fazendo aqui? Como ousa invadir assim meu apartamento? O que aquele 
homem est fazendo?. .. Quem  ele?
 Poupe sua voz, Suzanne  Mazzaro apareceu na porta do quarto abotoando a cala.  
Os invasores esto a servio, no esto?... Minha querida esposa comeou de novo, hein?!
Suzanne ps as mos na cabea.
 No estou entendendo... 
Mazzaro vestiu a camisa.
   simples. Este homem  apontou o desconhecido   um detetive particular. E ns 
acabamos de dar a Sophia o motivo para o divrcio!


CAPITULO X


 Mas ns no. . . 
O olhar de Mazzaro fez com que as palavras morressem nos lbios de Suzanne.
 E voc acha que os pormenores de nosso relacionamento interessam a esses homens? 
Basta que tenham nos encontrado juntos e aqui. . . sabe o que quero dizer, no?
  claro que ela sabe  disse Carlo.  Ainda bem que est entendendo e aceitando bem 
isso tudo. Fiquei com medo que voc fosse criar algum problema. . .
 Estou na casa de Suzanne, Carlo  disse Mazzaro calmamen , e eu no sou idiota de 
me meter a brigar com dois homens de uma vez. Se voc quer me provocar, trataremos disso 
noutra ocasio a ss!
 No me ameace, senhor conde!
 Eu estava ameaando?!.. . Agora, podem me dizer qual o propsito desta visita?
Suzanne invejava a calma de Mazzaro, porque ela tremia da cabea aos ps.
Carlo olhou para o outro homem e fez um sinal para que ele se aproximasse.
 Pignatti, esclarea!
  Estou aqui por ordens da senhora condessa di Falcone. Com esta informao ela pode 
entrar em juzo com o pedido. . .
 Est bem, est bem! J cumpriu sua misso, agora pode se retirar.
 Sim, senhor.
Pignatti encaminhou-se para a porta e Carlo acompanhou-o, depois de alguns instantes, 
olhando desconfiado para Mazzaro. Assim que a porta se fechou, Suzanne suspirou, trmula.
 Ah... Mazzaro...
Ele passou a mo pelos cabelos num gesto de violncia contida e comeou a andar, nervoso, 
pela sala. Isso a deixou mais inquieta ainda.
 Voc est bravo comigo?
 Com voc?!  ele parou e a olhou com emoo.  Como poderia? Ah, meu Deus, ser 
que ainda no sabe que eu amo voc?
Suzanne quase ficou sem voz. Mal podia acreditar. Fez meno de se aproximar dele, mas 
ele balanou a cabea dissuadindo-a.
  E agora... o que voc vai fazer?  perguntou ela cruzando os dedos.
Mazzaro desviou o olhar e exclamou raivoso fazendo-a gelar.
 Sophia, aquela vagabunda! Que mulher baixa! Eu deveria saber que ela no ia mudar!
 Ela... voc... voc j fez isso antes?
 Que tipo de homem voc pensa que sou? Pelo amor de Deus, Suzanne, eu acabei de lhe 
dizer: eu amo voc! No costumo sair por a conquistando mulheres. ..
 Desculpe, mas  que quando voc disse que Sophia tinha comeado de novo.. .
 Eu  que peo desculpas. . . estou descarregando em voc a raiva que tenho de Sophia!  
Ele balanou a cabea.  Ns amos conversar hoje. Se eu j tivesse lhe contado, voc teria 
entendido.
 O que h para entender, Mazzaro? 
Ele suspirou e olhou com ternura para ela.
 Vista-se, meu amor, eu lhe conto tudo.  Olhou para o corpo dela com desejo no olhar.  
Se voc ficar assim no consigo falar. .. e quando ela j ia se retirar, ele acrescentou:  Por 
favor. . . prometa que vai me amar, acontea o que acontecer!
Ela ficou relutante. No queria deix-lo nem por um minuto, mas ele se virou de costas 
abruptamente e disse:
 Faa o que eu pedi. Vista-se, por favor! 
Ela foi para o quarto, colocou um jeans e uma camiseta e voltou depressa. Ele esperou que 
ela se sentasse antes de comear a falar.
 No sei por onde comear...  disse ele que fora se sentar bem longe, para evitar a 
tentao de toc-la de novo.
 Diga-me por que casou com Sophia. Voc a amava?
  Est bem, vou comear por a. Pois ... j lhe contei sobre meu pai e Marina, ento acho 
que voc pode entender o estado de esprito em que eu estava quando encontrei Sophia... eu 
era jovem e me sentia independente pela primeira vez na vida e ela era uma mulher muito... 
livre... e ahn...
 Voc dormiu com ela?
 .  Mazzaro passou a mo pelo pescoo.  Ela no foi a primeira que tive, mas era 
muito bonita e quando me disse que estava grvida no tinha motivo para desconfiar. Fiz o 
que qualquer homem que se preza faria: casei-me com ela. S depois  que descobri que ela 
s estava interessada em ser a condessa di Falcone. No estava grvida coisa nenhuma!
Mas... e Elena?                      *
 Elena nasceu trs anos depois.
 Mas voc amava Sophia?
 Talvez no comeo. Eu tinha muita atrao por ela... e um homem pode virar escravo por 
causa de atrao!
Suzanne enrubesceu e ele continuou.
  Depois que meus pais morreram e que eu e ela fomos morar na Villa, Sophia percebeu 
que ser condessa no era to maravilho quanto ela imaginava. Eu estava sempre muito 
ocupado e ficava pouco tempo com ela. Meu pai havia feito muitas dvidas para poder manter 
a Villa e eu precisava arranjar meios de pag-las para no perdermos tudo. Sophia comeou 
a se entediar e foi procurar.. . consolo em outros lugares...
 Voc sabia?
  claro que no. S mais tarde  que fiquei sabendo dos vrios casos escandalosos.                                                                      
 E como descobriu?
 Eu gostava muito de esquiar. Era meu nico divertimento naquela poca. amos muito  
Cortina d'Ampezzo... j ouviu falar? Fica nos Alpes e  uma estao de esqui excelente! Eu 
costumava passar quase que o dia todo nas montanhas. Saa bem cedo, antes de Sophia 
acordar, e quando voltava  tarde encontrava-a refestelada no bar do hotel, cercada de 
admiradores.  Fez uma pausa.  Um dia voltei mais cedo do que de costume e... encontrei-
a na nossa cama com um instrutor de esqui  deu um sorriso de escrnio.  Que ironia, no? 
Sophia raramente esquiava!
 Que horror!  Suzanne apertou os lbios.
 Eu fiquei arrasado, voc pode imaginar... nem me lembro bem do que aconteceu... s sei 
que sa do hotel e peguei o telefrico para a pista de esqui na montanha mais alta que havia. 
Eu estava fora de mim, desorientado, nervoso... no estava em condies de fazer aquela 
descida perigosa! Lembro-me de que comecei a descer e de repente perdi o controle. Depois 
perdi a conscincia. Quando abri os olhos de novo vi o homem que dormira com Sophia me 
fazendo engolir uma bebida alcolica.  estranho que no meio de toda a confuso que ficou 
em minha cabea isso tenha ficado to ntido! Acho que ele havia ido atrs de mim porque 
percebeu o meu estado e ficara com medo de que eu fizesse alguma besteira. Sophia estava 
com ele. Quando eles perceberam que eu estava gravemente ferido devem ter entrado em 
pnico. Sem dvida Sophia deve ter ficado com medo de que eu a denunciasse se me 
recuperasse... sei l... fossem quais fossem os motivos, o certo  que acharam melhor fazer 
parecer que ou estava bbado, assim encobriam sua culpa. Afinal todos sabiam que eu era 
um bom esquiador e precisaria haver uma razo muito forte para que eu casse daquele jeito!
 No vai me dizer que eles abandonaram voc l!...
 Abandonaram sim. Pouco depois desmaiei de novo. Eu parecia mais morto do que vivo... 
um outro instrutor acabou me encontrando...                                   
 Mas como ela teve coragem de deixar voc naquele estado!
 E agora ela acha que pode conseguir o que quiser ameaando-me de tomar Elena de 
mim. ..
 Como assim? Sophia quer se divorciar de voc?
 Se ela quisesse, j o teria feito.
 Ento... no estou entendendo...
Mazzaro olhou-a por um longo instante, depois encolheu os ombros num gesto indefeso.
 Suzanne, voc   to. . . apesar de toda sua independncia, voc de certa forma  to 
inocente...  difcil explicar o tipo de mulher que  Sophia, mas o que ela quer enfim... sou eu.
 O qu?!...  ela empalideceu.
 Parece absurdo, no ?  ele passou a mo pelos cabelos. Mas existem mulheres 
assim. . .  mulheres que se divertem com amantes e acham que gostam dos maridos!
 Gostar como, se ela ia deixar voc morrer!?
 Eu sei. E logo depois, quando eu ainda estava morre no morre, ela comeou a se chegar 
a Pietro porque achava que ele iria herdar a Villa. S que eu comecei a melhorar e a ela 
voltou a me dar ateno. Mas eu j no estava nem um pouco interessado. Qualquer 
sentimento por ela que ainda restasse, morreu naquele dia do acidente. S que Sophia no 
aceita isso! E como me tornei inacessvel, ela tem mais vontade de me conquistar.
  por isso que voc no quer que ela saiba. . .
 Que eu posso andar?  claro! Porque assim talvez eu pudesse convenc-la de que 
sexualmente estou morto e quem sabe isso a levasse a pedir o divrcio .. e, ento, encontrei 
voc... e, contra toda minha vontade, acabei me apaixonando. Sophia deve ter percebido 
imediatamente, embora eu me esforasse para parecer indiferente a voc.
 E naquele dia do jantar.. .
 Voc estava to linda que eu tinha vontade de estrangular CarIo cada vez que ele falava 
com voc!
 Mas.. . voc podia se divorciar!
 Preciso pensar em Elena  ele balanou a cabea desanimado.  Voc acha que algum 
juiz deixaria a menina sob minha custdia?| Como  que ele vai saber o tipo de mulher que  
Sophia? Como me legalmente, ela tem direito de ficar com a filha!
 Mas ela nem liga para Elena!
 Ela sabe que eu cuido de Elena.
 E Carlo, o que tem a ver com tudo?
 Ele  apenas mais um dos jovens que ela gosta de seduzir. Ela pensa que assim vai me 
despertar cimes.
 E, agora, o que ele veio fazer aqui?
  Nunca houve outra mulher, Suzanne. Voc foi a nica! Nem me passou pela cabea que 
nosso encontro pudesse dar a ela uma oportunidade!
 De qu?
  Sophia est em Roma. Ela deve ter convencido Carlo a fazei isso para ela.. . e, como ele  
um pobre idiota, nem percebeu as intenes dela!
 Voc falou para ela que viria para Londres?
 Pietro deve ter contado. Eu no tenho cimes de Sophia porque no gosto dela...mas de 
voc eu morro de cimes! Quando Elena me disse que Carlo tinha vindo aqui para ver voc, 
eu fiquei louco e no pensei em mais nada. . . vim correndo!
 Ah, Mazzaro. . .
Suzanne suspirou e ele num impulso se aproximou dela, ia abra-la, mas logo voltou a si e 
se deteve.
 Eu no devo tocar em voc  disse ele.  Tenho de resolver algumas coisas antes que 
possamos ficar juntos.
 Que coisas?  fez uma pausa.  Se voc no pode se divorciar. .. porque seno perde 
Elena, o que vai fazer?
 Nesses momentos que passamos juntos eu tive certeza de que no posso ficar sem voc... 
 Acariciou os cabelos dela.  Deus que me perdoe, mas quando estou com voc no 
consigo pensar nem em Elena!
 Mas voc deve!  disse ela com um leve tremor na voz.
 Ser que devo? s vezes me pergunto se no  pretenso minha pensar que Elena s 
pode ser feliz comigo e no com a me. . .
 Mazzaro! Voc sabe que no seria bom para ela!  As lgrimas inundaram seus olhos.  
No podemos viver s pensando no presente, vocs sabe disso. . . no podemos ser felizes 
sacrificando a felicidade da menina. Voc sabe que Sophia no liga para ela. . . at eu pude 
perceber isso. Pode ser que agora voc no pense. . . mas no futuro acabaria me odiando e 
odiando a si prprio por t-la abandonado.
 Eu nunca poderia odi-la, Suzanne. . . mas acho que voc tem razo. . .
 Voc sabe que sim!
 Ento,     quer dizer que voc est me mandando embora?
Ela no pde mais conter as lgrimas. Escondeu o rosto entre as mos, soluando. Ele a 
envolveu nos braos, apoiando a cabea dela em seu peito, deixando-a chorar um pouco, e 
depois disse:
 Acho que h uma possibilidade. . .
Suzanne ergueu a cabea, consciente de que deveria estar com uma aparncia terrvel. Os 
olhos vermelhos e o rosto molhado.
 Que possibilidade?
 A coleo!
 Como assim, no estou entendendo.
 Eu no posso vender a Villa, pois ela est vinculada at o ltimo herdeiro do sexo 
masculino. Mas, a coleo  minha!
 E da?
 Ela vale uma pequena fortuna, voc sabe. S os quadros valem alguns milhes! Se eu 
oferecesse a coleo a Sophia...
 No! Voc no pode fazer isso!  Ela ficou horrorizada.  Voc adora a coleo..   ela 
significa muito para voc...
 No tanto quanto voc, meu amor. S voc significa muito para mim, agora. Voc  minha 
vida!  Fez uma pausa.  Ah... se Sophia aceitasse! Vale a pena tentar. A poderia me 
divorciar e fica com Elena.
 Ser que daria certo...  Suzanne tinha medo de ter esperana.
 Voc, eu... e Elena. Poderemos ter uma vida maravilhosa!
 E a... coleo?
 O que  a coleo comparada ao amor que sinto por voc? um amontoado de objetos 
inanimados! Eu nunca havia percebido antes como isso  ftil e vazio. Acho que eu nunca 
amei Sophia, afinal de contas. Eu nunca desistiria da coleo por ela.
 Pobre Sophia... eu no queria estar no lugar dela agora...
 E antes voc queria?
 Como sua esposa?  lgico que queria!... Eu amo voc, Mazzaro!
Ele a abraou de leve, com ternura e beijou-a longamente. Mas, quando da carcia comeou a 
brotar o desejo, ele a afastou com determinao.
  Eu preciso ir... preciso providenciar algumas coisas ainda. Quero ver se pego um avio 
para Veneza amanh cedo.
 Amanh cedo?  Suzanne sentiu-se vazia.  Voc.. . quer dizer... como vou saber o que 
aconteceu?
 A nica coisa que vai acontecer  eu voltar para ficarmos juntos!
 Eu espero voc... nem que demore a vida toda!
 No vai demorar muito. Eu no suporto mais minha priso!


CAPTULO XI


Suzanne estava saindo do escritrio quando viu Abdul e Norton, que vinham conversando. 
Assim que Abdul a viu pediu licena ao outro e veio ao seu encontro.
 Onde  que voc se escondeu? Telefonei para voc ontem de manh e depois  tarde de 
novo. Queria perguntar o que voc achou do filme. Ns no tivemos tempo de conversar na 
festa.                  I
Suzanne mal podia se lembrar de que se tratava o filme. Tudo parecia to distante! Tanta 
coisa acontecera em sua vida num s dia!
 Ah... eu gostei muito! Esse tipo de filme parece que atrai bastante pblico..
 E voc, o que tem feito? Norton me disse que voc saiu com um grupo de turistas.
  Ah . Um grupo japons... o guia ficou doente e eu fui substitu-lo. Foi um trabalho 
porque s alguns falavam ingls.
  Nossa! Imagino... tomara que o guia sare logo!
  Tomara mesmo! 
Mas no fundo ela at que gostara de ter sado do hotel, porque com toda aquela confuso ela 
nem pudera pensar em Mazzaro e no que poderia estar acontecendo no encontro dele com 
Sophia...
  Voc vai fazer alguma coisa hoje  noite?
  Eu. . . bem. . . no. Quer dizer, eu estou muito cansada hoje, sabe? Vou dormir cedo.
  . . . voc est um pouco abatida mesmo. Talvez seja melhor descansar. At logo, ento.
  At logo  sorriu ela aliviada. Desceu as escadas e saiu do hotel.
O apartamento estava abafado e ela foi logo abrir a janela antes de comear a preparar algo 
para comer, embora no estivesse com muita fome. Fez uma omelete de queijo e pegou um 
iogurte na geladeira. Arrumou tudo numa bandeja, foi para a sala e ligou a televiso. Contudo, 
no conseguia se concentrar no vdeo. Seu pensamento estava longe, imaginando o que 
estaria acontecendo em Castelfalcone naquele momento. O que ser que Sophia iria dizer? 
Ser que ela iria recusar a oferta de se tomar uma mulher rica? E se ela no desistisse de 
Mazzaro? Suzanne sentiu um calafrio. O que seria deles todos? E de Elena? Pobrezinha!
s nove horas tomou um banho, vestiu a camisola e voltou  sala para tomar mais um caf, 
antesMe dormir. Quando comeou o jornal das dez horas na televiso ela foi desligar, mas 
ento ouviu a notcia do desastre areo. Prestou ateno. Cento e quarenta pessoas mortas, 
nenhum sobrevivente, num desastre com o avio das Linhas Areas Italianas, vo 407 com 
destino a Veneza...
Suzanne no ouviu mais nada depois dessa palavra. S percebeu que derrubara a xcara de 
caf quando o lquido quente queimou seus ps. Aproximou-se da tela, ansiosa. Agora 
mostravam imagens trgicas dos destroos e o reprter explicava como, por um erro de 
clculo, o avio se chocara contra as montanhas, vinte minutos antes de pousar no aeroporto. 
Depois deu um nmero de telefone para quem quisesse mais informaes. Suzanne anotou, 
apressada, na beirada do jornal e desligou a televiso.
A linha estava ocupada e ela ficou tentando, nervosa, at que uma voz de mulher atendeu. 
Suzanne explicou que queria saber se um amigo estava naquele avio. Deu o nome e 
esperou. Depois de alguns instantes a voz confirmou que o nome dele estava na lista de 
passageiros. Suzanne s teve tempo de repor o fone no gancho, antes de desmaiar.
Que noite horrvel foi aquela! Ali sozinha sem ningum para ajud-la e ela sem poder 
raciocinar, sem saber o que fazer. S conseguia chorar desesperada. Pensou em procurar a 
me, mas como poderia explicar? No tinha mais ningum no mundo! Mazzaro estava morto... 
era o fim de tudo.
De manh cedo ouviu no noticirio que a Companhia Area estava transportando de graa os 
parentes das vtimas para que fossem identificar os corpos. O que faria? Ela no podia nem 
ao menos ir at l. No tinha o direito. Nunca mais veria Mazzaro.
Ela estava com uma aparncia to terrvel que quando Norton viu no escritrio assustou-se.
  Pelo amor de Deus, Suzanne, o que foi que aconteceu? Que cara  essa?
  Uma pessoa que eu conheo... morreu... morreu no desastre de ontem... o avio...
  Mas por que no me disse antes? No precisava ter vindo, tivesse me telefonado!
  Eu achei... que seria melhor...  a voz entrecortada por soluos  ficar perto de outras 
pessoas... mas voc tem razo .. no me sinto bem...
  Devia ser algum de quem voc gostava muito...  disse solidrio, colocando a mo 
sobre o ombro dela  sinto muito. Olhe Suzanne, tire uns dias de licena e v visitar sua me 
em Bristol. Voc precisa de algum neste momento.
  Ela est viajando... est na Alemanha com meu padrasto. no se preocupe comigo.
  Mas acontece que me preocupo. Voc no pode ficar sozinha. O que vai fazer, ento?
Suzanne no podia nem pensar em voltar para o apartamento que agora guardava tantas 
lembranas de Mazzaro. Talvez fosse bom afastar... ela olhou para Norton e uma idia 
comeou a se formar em sua mente.
  Posso mesmo tirar licena?
   claro!
  Ento vou aceitar... quero sair de Londres...
  Para onde vai?
  No sei... por a...
  Voc no est pensando em ir de carro, no ?  ele a olhou preocupado.
  Por que no?
  Voc est em estado de choque. No est em condies de guiar.
  Mas no  longe. Estou pensando em ir para Westhampton Regis. A cidade  pequena e 
calma... e tem praia.
  Por que no pede para Abdul lev-la?
  No! Por favor, no diga a ele para onde vou. Eu quero ficar sozinha!
  Est bem. No posso mandar em voc. .. mas, tome cuidado, viu?
Suzanne chegou  cidadezinha por volta de cinco horas da tarde. Fizera-lhe bem ter que se 
concentrar na estrada. Mas assim que entrou na cidade percebeu que ela havia crescido. As 
ruas estavam cheias de gente, pessoas que vinham em busca do sol das praias... e ento ela 
se lembrou que era perodo de frias. E se todos os hotis estivessem lotados? Estava 
cansada demais aps uma noite sem dormir e a viagem. No teria foras para voltar. Tudo o 
que queria era tomar um banho e ir para a cama.
Parou no primeiro hotel que viu, numa rua de menor movimento, e entrou. A recepcionista 
estava ao telefone e o saguo estava cheio de crianas.
  Pois no?  perguntou-lhe a moa ao balco.
  Eu queria um quarto de solteiro. . .
  Sinto muito mas no temos quarto de solteiro.
Suzanne saiu e foi percorrer outros hotis, mas a resposta era sempre a mesma: "No h 
vaga", at que no ltimo ela j estava exausta e resolveu:
  No faz mal, eu fico com o quarto de casal mesmo.
  Mas  bem mais caro...  disse a recepcionista. - No tem importncia. Vou buscar a 
mala no carro.
  Pode deixar que o carregador ir. Assine aqui, por favor.
O quarto era confortvel e moderno. Atrs da porta havia o horrio das refeies. Ela resolveu 
tomar um banho e descansar um pouco, mas s acordou na manh seguinte com barulho no 
corredor. E quando se lembrou por que estava ali, sentiu o corao apertar-se dentro do peito.
Os dias transcorriam vazios. Ela parecia uma sonmbula. Levantava-se cedo, tomava caf e 
ia at a praia, onde ficava at a hora do almoo. Depois do almoo saa e andava sem destino 
at sentir seus ps doerem. Voltava para o jantar e dormia at a manh seguinte.
Nem reparava nos outros hspedes. Achara que nunca mais repararia em ningum. Ningum 
mais importava agora que Mazzaro estava morto. . .
J estava h uma semana no hotel. Sabia que deveria pensar em voltar, mas Norton no lhe 
dissera quanto tempo poderia ficar de licena e ela tinha horror de pensar em voltar para 
aquele apartamento vazio. Resolveu que ficaria mais trs dias.
Segunda-feira, quando voltou ao hotel, viu um Mercedes estacionado na porta. Pensou 
imediatamente em Abdul, mas depois viu que o carro no era da mesma cor que o dele. 
Suspirou aliviada entrou.
Quando chegou  recepo para pegar a chave do quarto viu que havia uma mulher morena e 
bem vestida parada l. Assim que viu Suzanne, a recepcionista falou:
  Ah! J chegou! Esta senhora estava esperando a senhorita. 
Suzanne sentiu um calafrio quando a mulher se dirigiu a ela com um forte sotaque italiano.
  Voc  Suzanne Hunt?
  Sim, mas ..
  Venha!  a mulher pegou-a pelo brao.  No podemos conversar aqui. Podemos ir ao 
seu quarto?
  Espere um pouco. .    quem  voc? O que est fazendo aqui? Por que quer falar comigo?
A mulher parou e olhou-a sorrindo.
  Ah. . .  claro! Desculpe, eu me esqueci. Meu nome  Marina Rossi. . .
Um tremor percorreu o corpo de Suzanne ao ouvir aquele nome e ela ficou imediatamente 
plida.
  Bem que Mazzaro me disse que voc iria reconhecer meu nome
  Eu. . . quer dizer. . . no sei por que veio me ver, mas. . .
  Foi Mazzaro quem me mandou,  claro! 
Suzanne comeou a tremer incontrolavelmente.
  Mazzaro mandou. .. como?
  ! Mas no podemos conversar aqui...  ela olhou Suzanne sem compreender.  Voc 
deveria saber o que ele sente por voc
No era possvel! Parecia um pesadelo. O que estaria acontecendo? Sua testa se cobriu de 
suor. Ela passou a mo pelo rosto, nervosa.
  Mas porque est aqui, afinal? . . . Nada pode mudar. . .
  Mas por que est querendo evitar Mazzaro? Ser que ele se enganou sobre seus 
sentimentos?
  De que est falando? Evitar Mazzaro?. . . Como? Ele est morto! Voc sabe disso. . . por 
que veio me atormentar?
  Mazzaro.. . morto?  repetiu incrdula e ento virou-se para algum que entrava no 
saguo;  Mazzaro! Aqui! Eu a encontrei! Ela pensa que voc morreu. . .
Suzanne virou-se. No podia ser! Devia estar sonhando. . . e desmaiou nos braos do homem 
moreno.
Quando abriu os olhos estava em seu quarto na penumbra. Lembrou-se do sonho que 
parecera to real e um soluo dolorido dilacerou seu peito. . . ela caiu num choro convulsivo, 
escondendo o rosto no travesseiro.
  Suzanne! Suzanne! Pare com isso! Pelo amor de Deus, abra os olhos... eu estou aqui! Eu 
no morri, meu amor. . .
Ela abriu os olhos, relutante, e encarou o vulto na penumbra. Depois gritou assustada.
  Suzanne! Sou eu. . . Mazzaro. . . no fuja de mim outra vez!
  O avio... o desastre.. . voc...  falava com dificuldade  disseram-me que voc estava 
entre os passageiros. . .
  Foi um engano terrvel. . . mas eu estou aqui e no sou um fantasma, veja!
Ela olhou-o por alguns instantes e finalmente atirou-se nos braos dele. Era inacreditvel! 
Como era bom sentir os braos dele apertando-a. Sentir o calor e a proximidade daquele 
corpo que ela pensara nunca mais ver. Apertou o rosto contra aquele ombro forte e chorou de 
mansinho. Mazzaro deixou-a desabafar e depois ergueu a cabea dela para olhar seu rosto 
plido. Ele tambm estava bem abatido.
  Ah, Suzanne... como voc me fez sofrer!
  Sofrer? Por qu?
  Estou procurando voc h uma semana. No sabia o que tinha acontecido. Ah! Por que 
no imaginei?
Ele olhou para ela e no resistiu mais. Puxou-a para si, beijando-a com ardor. Ela o abraou 
com fora e entregou-se, sentindo o apelo daquele corpo sensual. Mazzaro fez um grande 
esforo para recobrar a razo e afastou-a de si delicadamente.
  Suzanne.. . precisamos conversar. . .
  Sobre o qu?  perguntou ela apreensiva.
  No me olhe assim...  disse ele fechando os olhos e abrindo-os em seguida  eu no 
queria falar agora, mas preciso...
  Voc... falou com Sophia?
  No. No falei...
  Ento voc mudou de idia?    
 No... ele suspirou  olhe, Suzanne... 
Mas ela tremia da cabea aos ps, vendo apenas uma nica explicao para aquela atitude 
indecisa dele.
   aquela mulher... no ? Aquela que veio com voc. Marina! Ela  muito bonita, no ? 
Afinal voc e ela...
  Suzanne!  ele a sacudiu de leve.  No  nada disso! Eu queria falar aos poucos... mas 
 melhor dizer de uma vez. Sophia morreu. Est me ouvindo? Era ela e no eu que estava no 
avio naquele dia! Por isso meu nome estava na lista de passageiros... ela estava viajando 
com Carlo!
  Meu Deus!  Suzanne arregalou os olhos, voltando a si de repente e entendendo tudo.  
Sinto muito...
  Pra voc ver... as ironias do destino! Eu tinha reservado passagem para Veneza naquele 
avio, mas depois mudei de idia. Resolvi ir para Roma falar diretamente com Sophia. Eu 
sabia onde ela estava. Se ela no tivesse dito nada, eu teria mesmo tomado aquele avio.  
Fez uma pausa e olhou para ela, que ouvia em silncio.  Ento, eu tomei o avio para 
Roma. Ouvi a notcia do acidente no rdio do carro. Fui procurar Sophia, mas no a encontrei. 
Achei que ela deveria ter ido para casa e resolvi ir tambm... ela no estava l e um pouco 
depois recebemos a notcia.
Ele pegou a mo de Suzanne.
  Foi ento que telefonei para voc. Queria lhe contar o que acontecera. Eu precisava de 
voc naquele momento como nunca!.. Mas me disseram que voc no estava no hotel. Eu 
deixei recado.
  ... eu tinha ido acompanhar um grupo de turistas japoneses... mas ningum me deu o 
recado.
  Pois , da telefonei de novo no dia seguinte. No foi fcil, voc pode imaginar, com o 
enterro e tudo que eu tinha que providenciar .. . mas me disseram que voc no queria falar 
comigo.
  O qu?
  ... eu mal pude acreditar!
  Ah... meu querido!  ela acariciou o rosto dele.
  Telefonei vrias vezes, nos outros dias e sempre a mesma resposta. Foi ento que pensei 
em Marina  ele sorriu , eu precisava encontrar voc para saber por que mudara de idia. 
E no podia sair da Itlia.
  Mas, eu no mudei de idia!
  Agora eu sei, mas naquela hora no sabia. Voc pode imaginar como eu estava me 
sentindo? Sophia morta... toda aquela confuso e providncias sobre o enterro e voc...  fez 
uma pausa  bem, da pedi a Marina que me ajudasse, que fosse a Londres procurar voc e 
lhe dissesse que eu amo voc e que a vida acabaria para mim se no me quisesse mais.
Ela se curvou e beijou o rosto dele emocionada.
  Deixe-me acabar...  respirou trmulo.  Marina foi e procurou o gerente do hotel onde 
voc trabalha. Ele no queria dizer onde voc estava.
  Eu pedi que ele no dissesse a ningum.. .
  Foi o que ele falou. Ele disse que voc estava perturbada e que viajara para se recuperar, 
mas no disse por qu. Entretanto Marina no desistiu. Ficou no hotel, at que sbado  noite 
encontrou um amigo seu... Abdul. Foi o homem com quem voc saiu na noite em que eu 
cheguei a Londres, no foi?
  Foi  assentiu ela.    
  Pois , mas a a histria comeou a se esclarecer, porque como ele tambm no sabia por 
que voc estava perturbada comentou com Marina que deveria ser por causa de um italiano 
que procurara voc.
  Carlo!exclamou Suzanne.
  , e ele pensou que fosse eu, por isso mandou que no dessem meu recado a voc. 
Quando Marina me contou, por telefone, comecei a entender e resolvi largar tudo para 
procurar voc. Sophia j tinha sido enterrada. Quando cheguei a Londres fui direto falar com o 
gerente e abri o jogo, falei quem eu era. A fiquei sabendo que voc pensava que eu estava 
morto. Ah. . . Suzanne, voc no sabe o tormento que eu sofri! Fiquei com medo que voc 
pudesse ter feito alguma besteira. Norton me disse, ento, onde voc estava e eu vim 
correndo. Percorri vrios hotis perguntando por voc.
Suzanne suspirou, trmula, e chegou mais perto dele.
  Ah... eu nem sei o que dizer...
  Diga que me ama!
  Eu amo voc. Eu amo voc  repetiu ela, segurando o rosto dele entre as mos.  Nem 
posso explicar quanto!
  Agora que estou vivo., . vamos deixar passar algum tempo ... e depois, voc casa comigo?
   claro que sim!.. . Mas, e Elena?
  Elena adora voc, voc sabe disso. .. e ela precisa de uma me... uma me de verdade! 
No basta o amor de tios e primos.
  Tia Tommasa no vai aprovar!  estremeceu Suzanne ao lembrar.
  Acho que voc vai se surpreender - sorriu ele.  Pietro  outra questo, mas no 
importa. O importante, agora,  saber onde vamos morar depois de casados.
  Pensei que fosse na Villa...
  Eu entendo se voc no quiser ir para l... 
Ela se atirou em seus braos de novo.
  Ah... querido! Por que no? Eu no tenho medo de Sophia. Agora no tenho mais.
  Voc fala srio?
  Voc no quer sair de l, quer?
   o meu lar...
  Ento ser o meu tambm. Se voc quiser..,
Ele afundou o rosto nos cabelos dela e ela sentiu que ele tremia.
  Nunca duvide disso  fez unia pausa, depois continuou:  Quanto a Pietro.. ele vai 
receber a parte dele na herana em peas f da coleo, que provavelmente vai vender e 
quem sabe d um jeito na vida dele. . . agora que est longe da influncia de Sophia.. . Tia 
Tommasa gosta do trabalho dela, voc viu. Estou pensando em construir um apartamento no 
muito longe da casa, onde ela possa morar confortavelmente com uma empregada.
  Voc acha que ela vai concordar?
   claro!... S tem mais uma coisa...
  O qu?
  Quero que volte para a Itlia comigo  disse ele, acariciando-lhe a nuca com os lbios.
  Quando?  perguntou ela, com a respirao alterada.
  Amanh... ou depois...  respondeu, pousando os lbios nos seios dela.
  Mas. .. meu trabalho. . .
  J falei com Norton. Est tudo certo!
  Puxa! Voc pensou em tudo mesmo.. .
   claro.. . e, agora, no me pea para ir embora... eu no conseguiria. .    sem voc eu no 
sou ningum.   . tenho at medo que voc no queira passar o resto de sua vida comigo, em 
Castelfalcone!  Mas, no existe outra vida para mim, meu amor. . . E um longo beijo selou o 
juramento apaixonado.


FIM
 
 
 
 
Nas Garras do Falco - The Medici Lover                                                                            Anne Mather
Sabrina n 37
                                                     Livros Florzinha        - 1 -
